terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Este não é um caso clínico

Nem um post de fim de ano. Muito menos um post revelador. Vou falar de algo que vocês já sabem ou já notaram de alguma forma em suas vidas. 
 
Sabem quando dá aquela vontade de escrever algo para você mesmo? Pois é, quis escrever este texto pra mim e compartilhar com vocês porque assim as coisas ficam mais amenas. Pra mim.

Enquanto eu aproveitava um dia das minhas férias pra fazer uma limpeza no meu armário das bagunças, já que em alguns meses estarei de mudança, tive essa vontade de me escrever.

Devo dizer que é impressionante a minha capacidade de guardar papéis em grande quantidade. Destruí toneladas de contas, anotações e bobagens.

Olhei as caixas com lembranças antigas e notei que eu tinha o hábito (inútil) de fazer listas de pessoas. A lista dos amigos de faculdade, dos colegas de trabalho, da escola de inglês, e por aí vaí. Tudo com nome, email e telefone. É, eu não sabia utilizar muito bem as maravilhas da internet. Mas não é sobre a minha falta de habilidade com a tecnologia que eu quero falar. Quero, na verdade, registrar quão surpreendente é perceber que muitas coisas e muitas pessoas já não me dizem mais nada. Elas tiveram um tempo exato na minha vida: o tempo do curso, da experiência de trabalho, de me ensinar alguma coisa ou de aprender comigo.

Separando os papéis, fui lembrando de momentos vividos e das pessoas que foram importantes para mim naqueles períodos. Algumas dessas pessoas eu tive vontade de procurar novamente. Usando toda a minha habilidade tecnológica atual, abri o Facebook e comecei a procurá-las e fiquei feliz quando a busca me dava exatamente quem eu procurava. 
 
Na hora, quis adicioná-las pra retomar o contato, mas eu não conseguia clicar no botão  <adicionar aos amigos>. Por que? Porque eu parei 2 segundos pra pensar, o que não é um hábito meu, confesso, e cheguei à conclusão de que hoje elas não fazem mais parte da minha vida e que não há mais espaço para elas. Elas pertencem à minha história, sim. Tenho lembranças ótimas e gosto delas, sim. Mas elas estão no meu passado e não precisam me aceitar como amiga (virtual) só para fazer volume no número de amigos. Então rasguei os papéis e os contatos e os emails. E elas continuaram a ser uma lembrança.

Essas pessoas de quem eu estou falando não são somente homens ou casos clínicos, não. 
 
Se bem que eu cheguei a procurar um namoradinho da faculdade e me assustei quando eu vi a foto dele com os TRÊS filhos no parquinho. Gente, deu tempo de ter TRÊS filhos? É, deu. Eu é que não quis até o momento ter nenhum, não é? Mas isso deve ser assunto para o próximo post.

Bem, mas no meio dessas pessoas estavam amigos, amigas, colegas de trabalho e de faculdade, e gente que eu achava que ficaria para sempre comigo. Mas a vida, que gosta tanto de brincar com a gente, não deixou. Então era hora de enfrentar todas essas perdas e praticar o desapego.

Para me ajudar, coloquei minhas músicas preferidas no modo aleatório. Logo tocou High and Dry, do Radiohead, que, por incrível que pareça, não me faz lembrar de um caso clínico, mas de uma ex-amiga. Depois veio Silent Lucidity, que me lembrou alguém que ficou na minha vida por vários anos e que desapareceu da mesma forma que as palavras quando voam com o vento. E então veio Happiness is a warm gun, que eu amo tanto e que nos últimos meses eu passei a associar com alguém que eu amei (amei?) muito e saiu da minha vida por minha culpa.

E por culpa também fiquei furiosa comigo por ficar associando músicas a pessoas. Porque eu não sou uma pessoa saudável como vocês que quando ouvem uma música que lembra alguém sentem aquela saudade, mas querem ouvir mil vezes a música. Não. Eu sofro horrores sempre que ouço os primeiros acordes e sinto um mal-estar que não é só psicológico, não. Daí o que eu faço? Passo a evitar a música.

Bem, mas no meio dessa confusão de papéis e recordações, me lembrei de uma conversa que tive com a Brid. Falávamos justamente sobre esse meu sofrimento descomunal com as músicas e ela, sabiamente, me deu uma bofetada:

- Lee, as músicas são maiores do que as lembranças. Você não pode deixar que uma lembrança ruim seja mais importante do que a própria poesia contida na letra.

E foi a essa frase da Brid que eu me apeguei. Continuei rasgando os papéis e ouvindo as MINHAS músicas. As músicas que ninguém pode tomar de mim por causa de uma lembrança, de uma saudade ou de uma dor. E cantei as minhas músicas, me divertindo com elas, como se depois de muito tempo elas voltassem de viagem e me dessem um abraço cheio de carinho, voltando pra minha vida.

Agora, meu armário tem um espaço enorme. E é com esse espaço que eu quero começar 2012.

Um ano novo muito lindo pra vocês, queridos leitores!

Beijos,

Lee ;-)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O caso do Doido Insistente (ou Um Fim e Um Começo)

2011 foi um ano complicado, assim como havia sido 2010. Porém, 2011 já começou meio complicado. Eu estava numa relação com o dentista de sempre, aquela mesma relação enjoativa, exaustiva e tediosa de anos, em que a gente percebe que não vai nunca fazer o outro feliz, sabem? Terminei e resolvi não fazer mais tentativas inúteis de gostar de alguém sem afinidades comigo. Eu estava completamente exausta.



Pessoas exaustas acabam não se importando muito com o coração alheio e eu estava nesta vibe. Acreditem, eu mal me importava com o meu próprio sentimento, como iria pensar no sentimento de outrém. E foi nesta levada que eu conheci o Doido em questão. Doido Insistente.



Nós nos conhecemos no pátio da PUC, numa tarde ensolarada em que eu vestia um shortinho jeans com bota de camurça e regatinha. Estava lá para obter informações sobre o bendito mestrado em "Quiproquó Rococolado" que eu tanto queria desde o ano passado, mas que eu não encontrava em lugar nenhum. Ele estava sentadinho em um dos bancos, compenetrado numa leitura misteriosa e eu, claro, estava perdida, procurando a tal da Secretaria de Pós-Graduação ou algo do tipo. Parei em frente a ele, pedi licença e disse:



- Oi, desculpa, mas você estuda aqui?



Antes que ele dissesse "não, eu gosto de entrar aqui para ficar lendo, e fingir que sou um deles", eu me adiantei e perguntei onde ficava a tal da secretaria secreta. Neste instante, ele levantou os olhos, me olhou de cima a baixo, parou no meu rosto e sorriu. Não sei se eu estava meio xarope por causa do sol ou whatever, só sei que eu parei nos olhos dele também e reparei nos cílios da criatura. Pessoas, sem brincadeira, eram os cílios mais lindos que eu já tinha visto na vida. Longos, emoldurando uns olhos divertidos e tal.



- Vou com você até lá. (ele disse, e levantou-se prontamente, fazendo com que eu reparasse nos seus 1,90m.)



Perguntou meu nome, perguntou minhas intenções lá, perguntou sobre o que eu estudava, perguntou se eu gostava de música, perguntou se eu tinha namorado e, por fim, perguntou se poderia me esperar. Respondi que sim; mais pela indelicadeza que seria se eu dissesse não, mediante a gentileza do rapaz, do que por "interesse" mesmo, confesso. Ele era legal, mas eu sabia que eu não era. Eu sou um problema e não queria causar problemas a mais ninguém por algum tempo.



Depois de pegar todas as informações que eu precisava, ele estava li, me esperando. Lembro-me de ter ficado sem graça, agradeci e disse que meu pai passaria para me pegar, assim que eu ligasse. Ofereceu-me carona (o que neguei veementemente, afinal, não sou destas) Ele perguntou se poderia me ligar um dia destes.



Pausa para reflexão:


Não, não poderia. Tal e qual Amy Winehouse, maconha com orégano, Coca Cola com Menthos e paçoquinha com Dolly, eu causo problemas. Quase cantei "I’m troube and you will know that I’m no good" para ele, mas ainda não sabia se ele gostava de meninas vocalistas (gosta). Não sou saudável para as pessoas e a questão é que eu só iria deixar acontecer se insistissem muito, mas saberiam sempre os danos que eu causo. Como numa embalagem de cigarros, onde você paga sabendo os males a que está sujeito.


Fim da pausa para reflexão.



Dei meu telefone mas disse que eu era confusa e ele não iria gostar de me conhecer melhor. Achei que ele não iria ligar.



Ele ligou.



Chamou para tomar café. Eu disse não.



Chamou para tomar um vinho. Eu disse não.



Chamou para ouvir um CD na casa dele. Eu disse não, mas perguntei que tipo de musica ele curtia. Ficamos algumas horas no telefone falando de música. Só isso. Música.



Chamou para comer profiterole de Nutella no Ruella Café & Bistrô. Como negar? Como negar, meu povo? Como negar, oh Jeovah? Fui.



Expliquei para ele toda a minha inépcia. Não nasci para ser mãe, não serei boa esposa, tenho queda de cabelo, duas restaurações de amálgama muito feias, gosto de uma banda maluca chamada "We are from Barcelona" (que ele conhecia), enfim. Fiz o que pude. Ele riu e fez com que eu me sentisse "apropriada". Eu não fiz promessas, eu apenas deixei que ele entrasse na minha vida, sem precisar fazer parte dela. Só para estar por perto. Foi este o trato. Eu não queria ninguém na minha vida. Não ainda.



Ficamos amigos, nos beijamos, transamos, saímos muitas vezes e eu nunca fiz promessas, repito. Era bom tê-lo ali. Era bom ser considerada "apta" para um cargo de confiança, porém, eu sabia que não era apta. Eu não estava pronta. Eu ainda precisava de tempo.



Conheci mãe, pai e a iguana. Conheci a irmã mais velha, conheci o sobrinho, conheci todo mundo. Nunca, em momento algum eu disse a palavra tão temida: "namorada". Algumas vezes, discutimos (feio) sobre o lance de "exclusividade". Eu não queria estar com outras pessoas, mas também não queria ser privada do direito de estar com outras pessoas se eu quisesse e a pior forma de querer me manter por perto é me prendendo.



Eis que uma sexta-feira qualquer, o Doido Remanescente me liga. Com toda a confusão que pairava na minha mente, eu nem pensei duas vezes. Saímos e passamos praticamente toda a noite conversando. Meu telefone tocava desesperadamente, mas eu havia avisado o Doido Insistente que eu passaria a noite fora. Antes que venham me crucificar, não houve nada nesta noite que passei com Doido Remanescente. Não houve beijo, não houve troca de olhares, não houve sequer intenção de nada. Houve apenas cumplicidade. Eu o entendi, ele me entendeu. Doido Remanescente estava de volta na minha vida e eu não tinha como fugir daquilo.



O problema veio no dia seguinte.



Doido Insistente: Onde você foi ontem.



Eu: Saí.



Doido Insistente: Com quem?



Eu não ia esconder nada dele. Ele sabia de toda a história anterior a ele, e não merecia que eu mentisse ali, naquela altura do campeonato. Contei toda a verdade, inclusive o fato de que talvez eu fosse ver o Doido Remanescente de novo. Afinal de contas, era o Doido Remanescente. Tudo bem que ele voltava ao jogo com um par de gêmeos (redundância) de 4 anos, um maiorzinho de 5, e uma caçula de 1 ano e 8 meses (e uma ex-mulher de bônus), mas não era esse o caso. O caso é que eu tinha que fazer uma escolha e minha escolha foi ser honesta, e jogar limpo.



Ele terminou comigo.



Não xinguei, não pedi para reconsiderar, não contestei. Aliás, eu sequer entendi o termo "terminar", afinal, não estávamos namorando. Mas enfim, amigavelmente combinamos que não sairíamos mais juntos.



(o post está longo e admito que sem muitos pontos de enfoque cômico, mas de qualquer forma, não vejo ainda muitas coisas engraçadas nesta história – pelo menos, não ainda. Quem tiver fôlego, que siga!)



Mas a vida é uma caixinha de surpresas e tal e qual como fez com Joseph Klimber, o destino quis rir da minha cara. Doido Insistente e eu tínhamos comprado ingressos para o Festival Planeta Terra. Eu iria ver os Strokes, minha gente! Só que agora, não havia sentido ele e eu irmos juntos ao evento, concordam? Pois é. O que eu não imaginava é que o Playcenter estivesse tão drásticamente diminuto. Pessoas, é impossível se esconder de alguém ali. Não que eu quisesse me esconder, mas nem preciso dizer que antes das dez da noite eu já tinha topado com o Doido Insistente umas 30 vezes, né? Na primeira vez, cumprimentei. Na segunda sorri. Na terceira aceno de cabeça e dali em diante, ignorei porque né? Desnecessário.



Deu-se que numa destas vezes, lá pelas tantas, ele (com sua turminha) passam por mim (com minha turminha) e ele me chama. Queria "conversar um minuto". Concordei. Eu usava o mesmo (sim, minhas roupas duram) shortinho jeans do dia em que o conheci no pátio da PUC. Nem mais longo, nem mais curto. Regatinha com camisete xadrez por cima e botinha. Cinquenta porcento das meninës naquele lugar estavam fazendo a linha indie-grunge e eu não destoava a não ser pelo corte de cabelo esquisito a lá Bettie Page. Ele disse as seguintes palavras doces, em tom inacreditavelmente alto:



(é bom que as crianças saiam da sala agora, porque contem palavras de baixo calão)



- Caralho BRID! Mal terminamos e você já sai por aí vestida feito uma vadia querendo caçar homem! Tá foda não olhar para você com esta roupa de menina fácil. Aliás, isto tá muito vulgar. Como eu pude gostar de você?



Calada estava. Calada fiquei. Virei as costas, tomei uma Neosaldina, um remédio para Labirintite e tal e qual Vanusa, fui! Fui cantar meu hino chamado "You only live once" no palco principal, já que Julian Casablancas não me julga.



Acham que já acabou? Tem a cereja do bolo, amigos!



No dia seguinte, meu telefone não pára de tocar e advinhem vocês quem era? O Casablancas perguntando se eu tinha gostado do show? O meu professor dizendo que eu tinha ganhado a bolsa integral na PUC? Minha cabeleireira adiando minha escova progressiva? Não. Era ele, Doido Insistente, dizendo que estava bêbado, e que havia falado todas aquelas coisas apenas para que eu "reagisse de alguma forma, nem que fosse dando um tapa na cara dele". Atendi porque queria entendê-lo. Eu sempre quero entender as pessoas. Meu mal é querer analisar o mundo inteiro, sendo eu a mais propensa à loucura. BRID, teu nome é Van Gogh e aqui está minha orelha cortada!



Não sei analisá-lo. Não sei ME analisar. Foi complicado fazê-lo entender que não havia desculpa para aquele comportamento infantil. Também não há desculpa pelo meu comportamento irresponsável, já que de certa forma, eu não me importei se ele se apaixonaria. Mas eu entendo que somos responsáveis pelos nossos sentimentos. Saint Exupéry nunca teve alguém na cola dele, por isso que disse que somos responsáveis por aquilo que cativamos. Cada um sabe do seu próprio sentimento, nunca responsabilizei ninguém pelo meu sofrimento e sempre encarei cada desafio amoroso sabendo onde estava me metendo (ui!).



Podem me julgar, eu não sou a pessoa mais certa deste mundo. Estou longe de ser sequer aceitavelmente correta. Eu ainda causo danos e continuo não escondendo isso de quem quiser pagar para ver.



Sei que este é o fim da minha pequena história com o Doido Insistente e o começo da minha saga com o Doido Remanescente. Aqui começa uma história que já tinha um começo, não teve nem meio e nem fim. Ou será que tem fim?



Vamos acompanhar?