segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O caso da Leitora - Parte I


Hoje, excepcionalmente, vocês lerão um relato não meu, nem da Lee e sim da nossa leitora e amiga Camila. Ela conta aqui sua história (uma delas, acredito) e tenho certeza que muita gente vai se identificar. Cer-te-za. Se você também tem uma história boa para nos contar, envie para drabridgetjones@gmail.com ou para draleeholloway@gmail.com. Uma vez por mês, postaremos uma história de vocês para que fique claro que nesta vida TODO MUNDO é para-raio de doido.

E os meninos, por favor, não se acanhem. Enviem também suas histórias. Não importa seu credo, sua cor, sua orientação sexual, seu time de futebol ou seu fetiche favorito. Tem espaço para todo mundo!

E comentem muito no post da Cá. Tenho certeza que ela vai adorar responder a todos.

Quem quiser segui-la no Twitter é só clicar aqui! Ela atende por @camicap.

O caso do Doido Mentiroso

Caso clínico:
Homem, 24 anos, alto, moreno, estudante de administração. Fomos apresentados em um jogo de futebol, pois éramos aficionados pelo mesmo time. Naquele dia, conversamos pouco e nos despedimos com a promessa de “nos vermos por aí”.


Porém, na mesma semana, o Doido me achou no Orkut. Começamos a conversar mais, nos encontramos em outros jogos e logo estávamos saindo. Ele era do tipo que faz piada de absolutamente tudo sem ser inconveniente e eu adorava isso. Eu, uma moça ingênua de dezenove anos, me divertia deveras.


Foi o Doido Mentiroso que me apresentou várias bandas que eu não conhecia. Foi ele que me induziu ao vício dos seriados americanos. Foi ele que me ensinou muitas coisas. Tudo era motivo para passarmos horas conversando e encontrando pontos em comum. Isso é piegas, eu sei, mas àquela altura eu já estava apaixonada e dali em diante era ladeira abaixo.


O Doido Mentiroso parecia corresponder o que eu sentia. Volta e meia surgiam mensagens declarando saudade ou exigindo um encontro. Mas sempre há um “até que”, e nessa história isso não demorou a chegar.


Estávamos namorando há um tempo quando, de repente, o Doido Mentiroso muda completamente. Assim, da água para o vinho. Começou a desmarcar encontros, dar desculpas do tipo “tenho que trabalhar até mais tarde” e mentir. Eu, sempre muito atenta, logo percebi que havia algo errado. Tentei conversar, mas o Doido sempre arrumava uma desculpa diferente – ele começou a me evitar completamente.


Foi então que um dia, após ter desmarcado um encontro pela 18ª vez, ele pediu para que eu entrasse no MSN, pois “precisávamos conversar”. Previ que daquela conversa não sairia boa coisa, mas mesmo assim resolvi acatar o pedido. O diálogo começou e não demorou muito para que minhas suspeitas fossem confirmadas.


Doido Mentiroso: Você sabe por que eu pedi para você entrar no MSN, né?


Eu: Sei.


Doido Mentiroso: Então, Cá, você sabe que eu gosto muito de você, mas em setembro eu estou indo passar minhas férias na França e acho injusto deixar você aqui.


O que o Doido não mencionou na conversa – e é extremamente importante citar aqui – é que ele passaria somente quinze dias na França. É relevante também dizer que estávamos em março quando essa conversa aconteceu.


Vou passar quinze dias na França. Estamos em março, mas viajarei em setembro. Acho injusto te deixar aqui. Ok.


Claro que eu não caí nessa conversa fiada. Apesar de apaixonada, eu não havia sido acometida pela passio stupidi (paixão estúpida) e conseguia perceber claramente que ele queria terminar, mas não havia encontrado um motivo plausível. Fingi compreender tudo o que o Doido me dizia e não esbocei reação alguma.


Seja grosso comigo, esqueça meu aniversário, não queira me ver, mas não minta para mim. Nunca, jamais, never. Não pense em me enganar. Não se fie em sua incrível habilidade de maquiar mentiras, porque eu descubro e é pior. Se há algo que eu não suporto é mentira. Como posso confiar em alguém que não tem coragem para me dizer a verdade?


O que se esperar de uma garota de dezenove anos? Fiquei arrasada. Desliguei o computador e chorei horrores sentada no quarto escuro. O sentimento de abandono era muito maior do que a indignação pelo o que havia acontecido. Durante algum tempo ele havia sido a melhor coisa que poderia ter acontecido em minha vida, mas ser rejeitada daquela maneira doía mais que tudo.
A confirmação de minhas suspeitas quanto às inverdades contadas pelo Doido Mentiroso veio meses após o término, quando descobri que ele estava com outra, a mesma garota que se tornaria esposa dele um ano depois.

Diagnóstico:
Mentira Deslavada (MD) desencadeada por uma crise de Babaquice Incurável (BI), Falta de Tato (FT) e Covardia Crônica (CC).


Tratamento aplicado:
O tratamento só seria efetivo se aplicado em mim. Excluí qualquer possibilidade de contato. Apaguei de redes sociais, deletei número da agenda, evitei contato com amigos em comum. Resumindo, sumi do mapa. Litros de lágrimas e doses alcoólicas depois, tudo foi superado. Quando o encontrei na rua em outra oportunidade, mantive minha classe e só permiti small talk. Ele deveria ser esquecido e realmente foi.


Para ler ouvindo: Blue Eyes Blue, do mestre Eric Clapton.

domingo, 9 de outubro de 2011

O caso do doido vício


O que acontece quando a gente espera muito tempo por alguém? 

Eu desenvolvi um tipo de dependência durante a longa espera. Ele parecia uma droga, um vício que eu precisava tirar de mim e não conseguia. Eu tinha necessidade de falar com ele e de sempre buscar alternativas para saciar essa vontade, apesar da distância entre nós.

Fiz algumas loucuras por conta dessa dependência, algumas boas e outras que eu considero grandes bobagens, mas meu impulso não podia ser contido. Isso já demonstrava que eu estava numa espécie de dependência psicológica. Eu precisava dele para não me sentir mal. Dos meus hábitos, ele fazia parte. Meu organismo tinha se adaptado à presença dele na minha vida.

Nos períodos ruins, quando nos afastávamos, eu tinha aquela fase de “delirium tremens”. Com a abstinência, eu entrava num profundo estado de angústia, que demorava a passar. Em todas as vezes que me reergui, meu vício voltava a aparecer na minha vida e tudo recomeçava.

Tive pouquíssimos momentos bons com ele. E, considerando que nossa história durou anos, só dá pra concluir que os momentos ruins dominavam nosso relacionamento. Assim como uma droga que te dá aqueles segundos de euforia e bem-estar e depois te deixa devastado.

Nunca tive overdose dele porque ele se escondida de mim algumas vezes, por mais que eu o procurasse. Ainda assim, ele era meu vício latente.

Durante anos, tentei fazer com que ele se apaixonasse por mim e, a cada negativa que a vida me dava, eu ficava mais forte e mais determinada a lutar pelo que eu queria. Mas a longa espera por ele ao meu lado foi minando a minha vontade e o meu desejo, ainda que eu tenha lutado tanto tempo por aquele relacionamento.

Nos últimos meses, fui me tratando sozinha. Aceitei os nãos, aprendi a não idealizar ninguém e parei de procurá-lo. O tempo me tratou e, felizmente, não precisei de ajuda para sair dessa dependência.

Já no final desse tratamento, ele me ligou. Escutei, pelo telefone, ele dizer pela primeira vez que me amava e que sentia minha falta. Só que já tinha passado tempo demais desde que nossa história tinha começado. Então, depois que ele se apaixonou por mim, desisti dele. E, juro, não foi de propósito.

Não desisti porque tinha, enfim, conseguido meu objetivo, mas porque passei a enxergar os defeitos dele de outra maneira. Tudo aquilo que não me incomodava antes, começou a me dar ojeriza. Saí do mundo dos meus sonhos, no qual eu construí uma imagem dele que era exatamente tudo o que eu buscava num homem, e passei a ver como ele realmente era: um vício.

Quem não tem defeitos, não é mesmo? Tenho muitos. Sou um ser humano completo, com a parte boa e com a parte ruim. Talvez meus defeitos sejam toleráveis para alguns homens e insuportáveis para outros, mas eles têm a liberdade de escolher se ficam comigo ou não.

Eu tenho essa liberdade também. Percebi que os defeitos dele eram insuportáveis para mim. Eu não conseguia lidar com um menino de 32 anos e não tinha a menor vontade de ensiná-lo a ser adulto. Meu impulso em direção a ele virou repulsa.

Como uma droga, ele continuou a me procurar e a me tentar, mas hoje eu tenho certeza de que não o quero mais. Ele não cabe na minha vida, ele não é a pessoa que me estimula a viver e a fazer planos. Gostei de uma pessoa que só existiu na minha imaginação.

Já me disseram aquela frase clássica: “todas as experiências são válidas”. Bullshit. Ele é apenas alguém que eu nunca deveria ter conhecido. Só isso.

*****
Para ler, ouvindo “Breaking the girl”, do RHCP: aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O caso do Doido Sem Nome


Estou solteira até segunda ordem. Já fazia algum tempo que eu não me aventurava pelos caminhos tortuosos da solteirice e tinha me esquecido que junta com grandes poderes (no caso, o da solteirice) vem grandes responsabilidades (o de arranjar novamente alguém). O caso é que eu, meio que esqueci deste detalhe desde que terminei com meu último doido (um dia conto – é dramático). Nunca mais freqüentei baladinhas específicas, destas em que a gente vai para ver, ser vista, escolher e pegar na vitrine.



Deu-se que minhas amigas (incluindo a Lee, fuzilem-na!), decidiram que era dia de me levar para o abatedouro. Não estou recuperada ainda do final da minha relação mal-acabada e também ainda não me decidi a quantas anda meu revival com o "Doido Remanescente". Confusão: este seria meu nome no dia de hoje. Estou tão cheia dúvidas e perguntas para mim mesma que mal sei exatamente como me chamo.



O dia todo do sábado foi aquele ritual sagrado que há tempos eu não vivia. Com entusiasmo forçado, me vi escolhendo entre os visuais de sempre. Saia curta (nem tão curta, ok?) e bota (O fato de eu medir menos que um hobbit não favorece este look) e vestido preto básico com salto agulha. Os dois fizeram sentir-me uma mercadoria exposta para apreciação. Escolhi o vestido por ser mais confortável. Sensação estranha, muito estranha. Não sou feminista nem nada, como pode estar parecendo, adoro me arrumar. Mas arrumar-se para uma pessoa específica é bem mais gostoso. Os cuidados, as peculiaridades, o perfume nos lugares certos, a escolha da lingerie... tudo isso é bem mais prazeroso quando estamos pensando num doido em especial. Aquele que tem nome, sobrenome, profissão e cheiro. Mas enfim, perdi o foco. Onde estávamos?



Ah, sim. Fomos para a baladinha. Som eletrônico, ambiente cheio de luzes hipnóticas, fumaça, drinks coloridos e os rapazes todos numa vibe "sou lindo", cheios de auto-confiança. Achei peculiar.



Eu gosto de dançar, mas aquele salto não estava favorecendo a minha performance de Lady Gaga. Avisei as meninas e fui para o balcão pegar uma Sagatiba pura. Enquanto eu tentava, com o auxílio do alcool, me desvencilhar dos pensamentos práticos sobre minha vida amorosa, arruinada e cheia de histórias sem final, um rapazinho se aproxima de mim e coloca a mão na minha cintura.



Mão. Na. Cintura.



Dei aquela reboladinha estratégica, meio que tentando me enfiar embaixo do balcão para que ele retirasse a mão biônica da minha circunferência, mas o moço fingiu que não reparou minha manobra e foi logo me olhando nos olhos, como se fosse me interrogar. Depois virou um olhar esquisito que se dividia entre cachorro faminto no quintal da vizinha e psicótico alucinado. Ele disse no meu ouvido:



- Você é linda.



Agradeci o elogio com um aceno de cabeça e ele veio de novo fungar no meu pescoço dizendo algo que eu decodifiquei como:



- A gente pode conversar?



Eu estava ali, sem nada para fazer além de gemer (ui) pelos meus pobres dedinhos do pé, esmagados pelo sapato de salto Luis XV, meia pata. Também poderia ficar lamentando meu pouco talento na escolha de homens disponíveis para relacionamento sério. Ou poderia dar uma chance ao mancebo e conversar com ele. Vai que ele gosta de Monty Python?



No exato instante em que eu disse "sim", o rapaz já veio com aquela boca entreaberta, cheia de dentes, língua e saliva, aproximando-se de minha cavidade bucal, neste momento também aberta, mas de espanto. Ele já veio pronto para matar Napoleão, sem ao menos ter enfrentado (e derrotado) meu exército. Neste momento, ativei meus mecanismos de defesa, afastei o gajo de forma delicada e disse:



- Mocinho, você nem sabe meu nome!



Ele respondeu, de forma pedante e tristemente natural:



- E o nome importa?



Naquele momento, eu o deixei ali, parado. Saí do balcão com aquela pergunta na minha cabeça.



Nome importa, sim.



Aí eu percebi uma coisa: toda boca, não é mais qualquer boca. Eu preciso antes, gostar do dono da boca e o dono da boca precisa ter nome. Esta boca, tem que ter dito coisas legais, que tenham me impressionado, caso contrário, ela é só uma boca. Uma boca cheia de dentes, língua e saliva, que não me atrai, que não me interessa, que não me faz bem como fazia antes. Eu não fiquei moralista, nem romântica, nem me tornei uma sonhadora, nada disso. O que aconteceu é que eu, agora, não consigo mais pensar numa boca sem contexto.



O moço era bonito. Mais tarde, soube que se chamava Flávio, tinha 26 anos, era engenheiro civil e gostava de cinema. Ele veio se desculpar mais para o final da noite, já acompanhado, porém gentil. Entendi, desculpei e até disse meu nome (o verdadeiro, mas apenas o primeiro – tenho um nome composto, incomum e meio ultrapassado).



Eu tive a minha época de provar todas as bocas, sem contexto. Algumas pessoas vão entender que eu agora só transo por amor, só beijo com paixão e só fico com quem eu já conheça. Na verdade, é um pouco mais complicado que isso. O fato é que agora, a atração não acontece por acaso, e atração, nada tem a ver com amor, paixão ou "já conhecer alguém".



Acho que hoje em dia, a "quimica" tem uma fórmula um pouco mais complexa que envolve Monty Pyhton, bom humor e um ingrediente secreto que eu nem sei o nome ainda. Vocês sabem?



Para ler ouvindo: As time goes by – do filme Casablanca.



Nota da autora: Divulguem se curtirem.



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