CASO CLÍNICO: Eu tinha terminado uma relação difícil (já perceberam que eu sempre estou terminando relações difíceis? Nasci para isso, acho) há pouco tempo e meu discurso "quero-me-conhecer-antes-de-emendar-uma-relação-na-outra" estava sendo divulgado a plenos pulmões por mim em todas as reuniões sociais. Eu não ia cometer o mesmo erro de TODAS as vezes (há-há-há).
Não sei vocês, mas eu tenho uma turma de amigos muito - como dizer isso sem magoá-los? – participativa, quando se trata de relações amorosas. E, óbvio que eles decidiram que eu me daria bem com este doido, (um amigo da Lee que eu nunca reparei direito) já que éramos feitos um para o outro, tínhamos o mesmo humor, ele era "super pra cima", e talicoisa. Ficaram umas 3 semanas com a propaganda, até que finalmente, nos esbarramos numa destas baladinhas de solteiros(as) em que eu já não ia faz tempo por 2 motivos:
1. Preguiça.
2. Preguiça.
O rapaz não era feio, inclusive tinha todos os dentes (em perfeito estado, aparentemente), era jornalista atuante numa destas revistas intelectualóides, e articulava bem sobre assuntos variados. Nós já tínhamos nos conhecido e nos visto mais de uma vez, mas sabe aquela pessoa que não te chama a atenção? Era ele.
Por algum motivo que eu não sei qual, nunca tinha me ligado muito na presença do moço nas nossas reuniões de amigos (apesar dele jurar estar sempre lá), e fiquei até surpresa com o fato dele já ter me "percebido", apesar da minha baixa estatura, corte de cabelo esquisito e óculos. É, há sempre alguém nos observando, pensei com ternura (sarcasm detected*).
A noite foi legal. Ele tomou a liberdade de querer me levar em casa, e eu tomei a liberdade de aceitar. Gentil, muito gentil. Sem beijo de língua na despedida. Apenas um "você é linda", um "obrigado pela noite" e um cafuné estranho. Gentil, muito gentil, afinal, naquela noite eu não tinha dado (ui!) nenhum sinal revelador.
Dia seguinte:
O rapaz me chama para sair. Aceito, afinal é um domingo e domingos são dias estranhos. Ele diz querer "correr" comigo. Algumas poucas pessoas sabem que eu as vezes corro (cof cof) aos domingos, depois vou ao Trianon ver os artistas de rua, depois almoço na Bela Paulista, religiosamente. Ele sabia. Tentei não me assustar com a revelação, imaginei que a Lee tivesse contado. Foi um domingo tranquilo tirando o fato de que ele sabia que eu gostava de Radiohead, que eu não comia acelga e que eu nunca pintava as unhas dos pés de cor clara. Isso tudo sem que eu nunca tivesse dito nada.
No meio da semana, um convite para jantar. Aceito meio desconfiada, mas atraída pela curiosidade, afinal, ele se demonstrou atencioso, solícito e interessado e eu sou destas que valorizam estas qualidades. Ele veio me pegar em casa, pontualmente e me levou no restaurante que eu frequento há uns dez anos. Ele já sabia o que eu fazia, meus títulos acadêmicos, onde eu já tinha trabalhado e com quem. O homem tinha um dossiê "Bridget Jones".
O problema é que eu não tenho Orkut. Não tenho Facebook. Não tenho Twitter pessoal, não tenho Flickr. Se bobear, não me acham nem no Google. Sim, eu tenho medo da exposição, beijos. Podem me chamar de neurótica, eu aceito. Preciso de terapia, admito.
Imaginando que andavam espalhando meus hábitos e gostos por aí, perguntei as pessoas que me conhecem bem, se o Doido Detetive andava me sondando. Ninguém disse nada. Assustada fiquei, mas achei que deveria perguntar para ele como sabia tanto de mim.
Perguntei.
Resposta do Doido: "Eu. Tenho. Minhas. Fontes."
Fontes. Fontes, minha gente! Como se eu fosse o chefe da máfia e ele quisesse me pegar no pulo.
Neste estágio da "relação", tínhamos apenas trocado um "french kiss", meia carícia mais ousada, e uns cafunés (ele insistia com esta coisa de cafunés). Até que se deu o seguinte fato:
Estou no trabalho, na minha mesa. Tenho um ramal direto na minha mesa. Ninguém tem este número, a não ser a Lee, a minha mãe e a minha irmã. Ele liga. Perguntado sobre COMO conseguiu o meu telefone, ele alega ter "procurado na lista". Perguntou para alguém da turma onde eu trabalhava, decidiu dar uma de detetive, ligou no telefone geral da empresa, pediu para falar comigo e BUM! O problema é que EU mesma tentei fazer isso, para testar, e não consegui falar comigo.
Até agora, não tenho idéia a que "fontes" ele se referia. Perguntei para a Lee se ele era inofensivo e as palavras dela nos fizeram rir por horas. Ela disse: "Tão inofensivo quanto um tigre banguela!" Obviamente, não teve graça nenhuma, mas estávamos bêbadas.
Achei melhor, por bem, apresentá-lo a uma amiga minha, muito mais afeita a essas coisas de "redes sociais", assim, ele não teria tantos obstáculos com as ditas fontes, afinal, eu sei que dou um certo trabalho. Sabem, é legal quando alguém se interessa pela gente, quer nos conhecer, pergunta sobre a nossa vida, tem prazer em saber dela. Mas o legal é justamente essa interação, esse prazer de descobrir o outro e ser descoberto. Mostrar-se, ver, desenhar o outro no seu subconsciente, idealizar-se e idealizar o outro também.
Eu até quis conhecê-lo, mas ele sabia tanto de mim, sem eu ao menos ter a chance de contar do meu jeito, que eu achei que já estava em desvantagem logo de início.
Termino este post, com uma dúvida: será que eu estou certa? Tenho manias estranhas, admito, mas de qualquer forma, ele não gostava de Monty Python, mesmo!
Para ler ouvindo "The Scientist" do Coldplay.