CASO CLINICO: Homem, 29 anos, cabelos castanhos, usava uns óculos com armação quadradinha que lhe davam um ar de nerd e tinha uns dentes completamente simétricos que me deixavam sem ar a cada sorriso. Parecidíssimo com o
Olivier Sitruk, o ator francês, sabem? Um dos doidos que eu mais apreciei fisicamente, mas acreditem, ele não era padronizadamente bonito. Ele era o meu tipo de homem bonito, simples assim.
Nós nos conhecíamos de vista, pois ele era amigo de um dos meus primos. Sabia que ele namorava uma garota e que eles estavam juntos desde que mundo é mundo. Também sabia que ela era chata, possessiva e que tinha "queixo de ganso" (palavras do meu primo). Nós nos encontrávamos sempre na casa dos meus primos, mas nunca conversávamos muito, afinal, daquele mato nunca sairia coelho algum e eu sou destas que evitam constrangimentos (quase) sempre. Foi assim por anos. Eu namorava um ou outro e ele sempre com a tal da namorada (eles namoraram uns quatro ou cinco anos, nunca soube ao certo).
Era Natal e eu estava terminando um período sabático em que eu tinha dito que não ficaria com ninguém nos próximos 20 anos, então estava feliz da vida, porém cautelosa. Festinha anual na casa dos meus primos. O doido sempre passava lá para cumprimentar meus tios e ficava lá um tempinho, antes de rumar para a casa dos pais da namorada (os pais dele são de Portugal). Ele chegou, cumprimentou todo mundo (inclusive eu), pegou um copo de qualquer coisa e ficou andando pela casa.
Serei breve com o relato: lá pelas tantas, ele sentou ao meu lado no sofá, disse que tinha terminado com a tal da namorada, que tava tudo uma bosta, que a vida dele tava um saco, que ele era muito jovem para se casar, que eles eram muito diferentes, que ele precisava mudar isso e tudo o mais.
Eu, apenas ouvi.
Sei que no final das contas eu dormi ao lado dele no sofá da casa da minha tia, os dois sentados e um tanto altos devido as bebidas natalinas. Acordamos, passamos o dia juntos e acreditem ou não, ficamos uns 2 meses no esquema FNAC, chocolate quente, cinema, até que numa noite de garoa, ele decidiu me beijar, dentro do carro, no estacionamento de uma casa de fondue. Retribuí o beijo e tudo transcorreu como deveria. Foi legal porque estávamos à vontade um com o outro e esperávamos por aquele momento. Imagino que ele, tanto quanto eu.
Começamos a ficar, nos falávamos todos os dias e eu dormia lá nos fins de semana. Era uma relação praticamente perfeita, mas "quando tudo está perfeito, nada está perfeito", já dizia Nick Hornby.
A tal ex-namorada sempre ligava. Quando éramos apenas amigos, quando começamos a nos beijar por brincadeira e quando dormimos juntinhos pela primeira vez... Ela sempre ligava para chorar, dizer que estava mal por causa dele e ele sempre falava coisas apaziguadoras como "um dia você vai me agradecer por termos terminado, nunca daria certo" e tralalá. Depois, argumentava comigo que "eram sei lá quantos anos, ele se sentia responsável por ela, ela era frágil" e tralalá. Eu entendia. Gostava dele, gostava muito.
Certa noite, umas três e meia da manhã, ela liga no telefone fixo da casa dele. Acordei assustada, mas estava tão atordoada de sono que nem me dei conta de que o Doido levantou da cama, foi até a sala atender o telefone e quando voltou, foi para dizer:
- Brid, é a (insira aqui o nome de alguma neurótica que já tirou a sua paz). Ela está meio deprimida e precisa de mim. Tá chorando feito uma criança no telefone, disse que precisa conversar comigo. Eu vou até lá, você se importa?
Eu fiz que não com a cabeça, sorri complacente e o observei tirando o moletom, trocando a camiseta, com pressa, com medo, com preocupação. Naquele instante, eu percebi que ele nunca seria meu namorado. Ele era dela.
DIAGNÓSTICO: Não-identificado. Agradeço a quem tiver um palpite.
TRATAMENTO EFETUADO: Levantei, tomei um banho quente ouvindo "For No One" dos Beatles, chorei no chuveiro para que nem eu mesma percebesse as minhas lágrimas, me vesti e sentei no sofá. Acendi o último cigarro da minha vida (eu já tinha parado de fumar) e pensei no que fazer. Eu não ia lutar por ele, não é o meu perfil. Eu não ia dizer para que ele ficasse com ela, também não sou do tipo hipócrita que se martiriza pelo amor. Eu apenas iria embora. E fui.
No dia seguinte, ele foi me pegar no trabalho, queria se reconciliar e me disse as seguintes palavras que me fizeram tomar a decisão de não vê-lo mais. Ele disse:
- Ela precisa de mim, precisa de cuidados, sempre precisou. Voce é forte, você consegue superar tudo, não precisa de ninguém. Eu te admiro justamente por isso. Você não vai precisar de mim nunca, eu não preciso estar ao redor para que você esteja bem e isso é ótimo. Você vai ser feliz, independente de mim, ela não.
Não sei até hoje se ele estava me elogiando, se ele achou que estava dizendo a coisa certa ou se ele imaginou que eu ficaria feliz com aquele discurso embaralhado e confuso. Sei que na hora eu pensei que eu era forte, mas também precisava de cuidados. Logicamente que eu não os requeria a todo o momento, mas eu precisava, sim. Ele tinha uma imagem de mim que eu não era e talvez não conseguisse nunca ser. Ele queria alguém que não existia. Ele era tão preocupado com os sentimentos dela e achava que eu era inatingível, uma rocha! É cansativo ser uma rocha.
Ao mesmo tempo, me dei conta de que talvez ele gostasse de ser necessário para ela. Não sei ao certo.
Após ouvir as palavras dele, eu não consegui dizer nada. Eu chorei. Chorei sem lágrimas. Chorei para dentro. Ele nunca soube. Eu o abracei e pedi para que ele fosse feliz. Senti o rosto molhado dele no meu e ouvi uma voz baixinha no meu ouvido perguntando: Por quê?
Nós dois sabíamos que talvez pudesse dar certo, mas não naquele momento.
Isso aconteceu há muito tempo, eu ainda nem sabia direito o que era gostar de alguém e acho que ainda não sei. A única coisa que eu sei é que a gente pode passar por uma situação deste tipo um milhão de vezes na vida, mas nunca vai saber lidar com ela de forma coerente. A coerência não faz parte das paixões, nem dos amores, nem das decisões que envolvem estes dois sentimentos. A coerência entra em cena nas coisas práticas da vida. Eu poderia ter tentado. Ele poderia ter tentado. Mas preferimos ser coerentes.
... e nunca soubemos se daria certo.
Prólogo: Doido Indeciso não voltou com a ex-namorada. Ela se casou menos de um ano depois e hoje tem 2 filhos. Ela foi feliz, independente dele. O Doido Indeciso foi transferido pela empresa, para o Paraná, cerca de 3 meses após nosso rompimento. Eu nunca soube se fui a razão para tal transferência e acho que seria arrogância minha achar que sim. Nunca perguntei a ninguém e prefiro nunca saber.
Escrevi ouvindo "For No One" dos Beatles.
P.S.: Como sempre, agradecemos a todos aqueles que nos divulgarem em seus Twitters, Facebooks, sala de espera do terapeuta e outras redes sociais virtuais ou não. E agradecemos muito mais aqueles que comentarem, pois os comentaristas são a alma deste blog. É isso que nos motiva a continuar. Obrigada a todos aqueles que nos mandam e-mails contando suas histórias e pedindo conselhos. Tentarei responder um por um até sexta-feira, combinado?
P.S. II: Sorry pela história meio tristinha...
P.S. III: Desculpem não colocar o link das músicas (é tudo meio bloqueado aqui), mas eu faço qustão que vocês ouçam "
For No One". Vai fazer todo o sentido.