terça-feira, 28 de junho de 2011

O caso do Doido Violinista

CASO CLÍNICO: Homem, caucasiano, 30 anos, músico (já ouviram falar em "karma cíclico"? Eu tenho com músicos, publicitários, dentistas e malabaristas do Circo Vostok, mas isso já é outra história), 1,98m, olhos castanhos claros, cílios clarinhos e cabelos longos ao estilo "maestro". Eu achava bonito, não MIM julguem, pode acontecer com qualquer um de vocês.
Acontece que tenho uma família meio musical e entre os aspirantes ao sucesso da família Jones, está minha irmã, que faz algumas estripulias no violino. Como toda musicista, ela tem muitos amigos músicos e certa vez, ela cismou de me apresentar dois amigos que tocavam violino em orquestra.
Os dois eram lindos, mas um deles era de boa família, já tinha morado na Rússia, falava 5 idiomas, era maestro, tocava além do violino, piano, era cavalheiro e parecia muito respeitador. O outro era um tanto petulante, tinha ar de superior, nem era tão bonito assim e era suplente do suplente do suplente na Orquestra da UNICAMP.
Adivinhem qual deles gostou de mim?
Acertou quem disse "o primeiro", perfeito e encantador.
Adivinhem de qual deles eu gostei?
É, isso mesmo. Gostei do tranqueira. Lógico!
Como não sou boba nem nada (muito menos ele), combinamos de eu ir assistir uma de suas apresentações e logo após o concerto, eu daria (êpa!) umas voltas com ele pela cidade. Tudo sucedeu-se na mais perfeita ordem e método. Começamos a namorar firme.
(Adoro esta expressão: "Namorar Firme". Sempre fico imaginando o que seria "Namorar Mole" ou "Namorar Frouxo").
Conheci mãe, pai, cachorro, terapeuta e todos os níveis de pessoas que devemos conhecer quando estamos num "Namoro Firme". Ele conheceu meu afilhado, o que já é o máximo de intimidade que um cara vai conseguir comigo no quesito "infiltração familiar". Sou destas que odeiam dar explicações na hora de justificar porque a relação não deu certo, principalmente porque elas nunca dão (e meus parentes são bem futriqueiros).
Ele era atencioso, carinhoso, educado, inteligente e inclusive aquela petulância toda do começo deu lugar a uma pessoa extraordinária. Extraordinariamente retórico, quero dizer. Tinha o dom da oratória em todos os poros daquele corpo alvo mais que a neve, livre de pêlos e impurezas. Ele sempre tinha justificativas plausíveis para ausências, explicações totalmente factíveis para todo o tipo de falha. E era aí que morava o perigo, já que eu, ingênua, nunca desconfiei de nada.
Músicos viajam. Marinheiros viajam. Qual deles tem um amor em cada porto? Exato, meu músico!
Descobri da forma mais clichê possível: fazendo uma surpresa numa cidade pequena do interior de São Paulo. Fui ver sua apresentação, achando que ele ficaria com lágrimas nos olhos. Lêdo engano. Lá, ele tinha uma tal de Luisa, tão encantadora quanto a de Chico Buarque. Eu a descobri por acaso, sentada ao lado de minha adorável cunhada (irmã do Doido) e depois de mãos dadas com o Doido Violinista, na coxia do anfiteatro, logo após o brilhante concerto (esta frase foi carregada de sarcasmo. Obrigada pela compreensão.).
Depois disso, descobri todas as outras. Uma no Pará, uma no Espírito Santo (bendita seja), uma em Santa Catarina e várias (sim várias) nas cidades próximas à Campinas. Nem perguntem como eu as descobri, nem perguntem!
DIAGNÓSTICO: Mal de Músico – os músicos que me desculpem, acho ótimo, mas né? Toda vez que eu tento dar uma chance a algum exemplar da categoria, acabo me estrepando. Antes eu achava que o problema era eu, mas com o tempo, percebi que isso é uma espécie de comportamento padrão. Algum de vocês tem explicação (ou até justificativa) para isso? Não vale me xingar! Aceito conselhos também, já que minhas estatísticas no ítem "Fazer Dar Certo" não estão lá muito favoráveis. Não vale dizer que eu deveria ter escolhido o outro músico, esta indagação eu me faço todos os dias!
TRATAMENTO EFETUADO: Terminei com o rapaz logo após descobrir a primeira, sem escândalo, sem discurso e sem choro. Até amiga dele eu concordei em ser. Logo depois quando descobri as outras, dei toda a importância que o caso deveria ter e quis saber "makeporraéessaseufilhodumaputa"? Ele tentou usar o dom da retórica. Tentou, mas acho que neste dia, eu estava mais Aristotélica do que ele e devo ter falado sem parar por umas duas horas, mais impropérios do que eu conheço em Língua Portuguesa (e não são poucos, sou über versada em impropérios). Sem julgamentos, ok? Afinal, eu estava puta (ui!). Beeeem puta (êpa!).
O moço, uns dois anos depois (esta história tem um certo tempo) tentou engatar (ui!) uma amizade. Cedi, já que tal e qual Mark Zuckerberg, Didi e Roberto Carlos, "eu quero ter um milhão de amigos". Mas só por isso!
Continuamos com a campanha: "Ajude a divulgar o Sou pára-raio de Doido e ganhe uma viagem a Acapulco com o Chapolin". É só nos divulgar no seu Twitter, Facebook, cabeleLÊro AND comentar aqui no post mesmo! Lembrando que eu dei um jeitinho de responder todos os comentários durante meu expediente, porque sou destas, subversivas!Também queria dizer que tem sido complicado postar na segunda-feira, mas estou aqui, firme e forte, na terça. Verei uma forma de voltar a postar nas segundas!
P. S.: Gostaria muito de receber o CD novo do Kaiser Chiefs por e-mail, já que não tenho como fuçar aqui no "siviço" e estou com vontade de ouvir hoje. Quem tiver como me mandar (pelo menos uma musiquinha), eu agradeço. Mandem para drabridgetjones@gmail.com

terça-feira, 21 de junho de 2011

Procura-se um amor que goste de Monty Python

Ele tem de ser cavalheiro e dizer "Ni". Precisa rir das minhas piadas quando elas tiverem graça e quando não tiverem, achar uma forma de completá-las, para que elas tenham. Ele tem de ser forte, mas não precisa ter músculos. Ele tem de entender que eu também choro sem lágrimas e quando me faço de forte, aí sim é que eu fraquejo.

Ele precisa ter todos os dentes, e estes, não precisam ser perfeitos, não. Basta que saibam morder e sorrir do jeito certo e na hora certa. Precisa saber identificar meus pontos positivos, mesmo quando eu tento escondê-los e eu faço isso o tempo todo. Precisa ter paciência e gostar de música, mas não todo o tipo de música. Ele precisa saber o porquê de gostar das coisas e precisa gostar de me explicar estes porquês. Eu adoro ouvi-los. Eu adoro "porquês".
Ele precisa respeitar minha mania estúpida de recitar diálogos de filmes que eu amo e precisa se emocionar com Casablanca, mesmo que disfarce. Ele precisa sentir Neruda, mesmo que negue. Ele precisa ser Van Gogh, mesmo que não seja. Ele precisa soar como Beethoven, mesmo que eu não possa ouvi-lo, como Beethoven já não ouvia quando compôs sua sinfonia mais linda. Ele precisa ter a frieza de um cirurgião e a sensibilidade de um artista. Teria então, de me dedicar uma obra, seja ela um desenho rabiscado, uma música de letra simples, um dente esculpido em parafina ou um suposto Chewbacca feito em massa de modelar para agradar meu afilhado.
Ele precisa saber que um abraço silencioso me acalma muito mais do que explicações ruidosas. Precisa saber que eu durmo poderosa e acordo frágil, pensativa e questionadora, mas não demonstro nunca. É neste momento que o tal do abraço silencioso tem mais efeito.
Ele precisa saber que tenho medo de altura, de escuro, de formigas e da morte. Precisa saber que beijo na testa me irrita e beijo no olho me excita, sussurros me despertam e gritos me calam. Beijos na boca, destes inesperados, também me calam e me despertam. Procura-se um amor que goste de cheiros, que saiba apreciá-los, mas que só reconheça o meu.
Procura-se um amor que me faça rir, gargalhar. Procura-se um amor que me faça chorar de novo, mesmo que de tristeza. Procura-se um amor que me faça sentir algo, seja bom ou mau, prazeroso ou doloroso. É a apatia, a sensação de não sentir nada que me deprime.
Ele precisa ser tantos já que eu sou várias. Ele precisa ser muitos, já que eu sou todas. Ele precisa ser todos, já que eu sou nenhuma. Ele precisa ser são, já que eu sou doida. Completamente doida.
Mas o mais importante de tudo (e o mais difícil de encontrar): precisa gostar de Monty Pyhton.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O caso do Doido Gamemaníaco

Este caso não aconteceu há muito tempo atrás, mas também não é tão recente. Foi rápido, maluco, intenso e por que não dizer, memorável! Acompanhem:

CASO CLINICO: Homem, 32 anos, ruivo, olhos verdes, enfim, era praticamente um duende irlandês, tirando o fato de que era alto.

Eu o conhecia dos tempos de faculdade e costumava achá-lo imensamente chato, arrogante, cheio de si, metido e falastrão. Achava ele bonitinho também, mas ninguém é perfeito e eu não costumo ser destas superficiais. Tendo todos os dentes, sendo limpinho e falando o português mais ou menos certo, para mim já está de bom tamanho. O que importa mesmo é que tenha saúde, não é assim que dizem? Na verdade para mim o que importa é que me façam rir. Acreditem ou não, me fez rir, eu tô de quatro (UÊPA!). Não MIM julguem.

Acontece que nos reencontramos no Orkut (não MIM julguem II – A missão). Decidimos reunir a turma, nos encontramos num barzinho vilamadalênico, ficamos por lá conversando e eu o achei arrogante, pedante, metido e... incrivelmente divertido. Conversa vai, conversa vem, ele me conta que tem uma namoradinha de 19 anos, blábláblá, eles tem uma diferença grande de pensamentos, blábláblá. Até que ele dispara, assim do nada:

- BRID, como eu nunca reparei em você?

Pensei em duas respostas:

1. Porque eu era NOIVA quando nos conhecemos.
2. Porque eu era FEIA quando nos conhecemos.
3. Porque você era ridiculamente insuportável quando nos conhecemos.

Mas achei melhor dizer apenas que "eu era sem graça quando nos conhecemos". De qualquer forma, ele disse que queria me ver de novo, que precisava disso, que era o destino, e talicoisa.

Ele: Anota no seu caderno. Hoje é terça-feira. Antes de quarta-feira que vem, você vai ser minha namorada.

Eu: Você JÁ TEM UMA namorada. Isso seria impossível.

No dia seguinte, à noite ele me mandou um e-mail com uma música inédita de uma banda que eu amo.

Na sexta, ele mandou o motoboy entregar uma caixa de chocolates no meu trabalho.

No sábado ele disse que tinha terminado com a namoradinha, passou na minha casa para conversarmos, saímos, conversamos, ele me deixou em casa e eu dormi pensando nele.

No domingo, ele foi correr comigo no parque, almoçou comigo, me levou na FNAC e comprou um CD (importado) da mesma banda que eu amo sem que eu visse.

Na segunda, ele me ligou as 5:30 da manhã para me dar "Bom Dia". Eu tinha dito para ele que acordava essa hora todos os dias.

Na terça, fomos jantar. Ele PREPAROU o jantar na casa dele. Ele foi perfeito, educado, polido, gentil e...

... na quarta, acordei ao lado dele (Não MIM julguem parte III - O Retorno).

Podem me xingar, eu sei que mereço, mas eu estava saindo de um relacionamento esquisito (mais um), estava confusa e precisava usar a "substituição" como cura. Atire a primeira pedra quem nunca fez isso.

Começamos a nos ver sempre, as relações-prazerosas-sem-fins-reprodutivos eram muito, muito boas, ele era atencioso, cozinhava para mim (que não sei fritar um ovo) e tudo estava perfeito até que ele comprou um Wii. Sim, pessoas, um Nintendo Wii.

A vida já não era a mesma. Ele não queria mais sair, para jogar o tal do Wii. Não queria mais comer, para jogar o tal do Wii. Não queria mais conversar, para jogar o tal do Wii e por fim, não queria mais me dar prazer e luxúria, somente para jogar o tal do Wii.

Antes que venham dizer que ele possa ter enjoado de mim, e coisa e tal, já adianto que é bem provável, não vou entrar no mérito de eu era a namorada perfeita. Mas enfim, chega na titia aqui e fala, né? Não me deixe achando que meus quadris são menos interessantes do que um console de videogame, porque aí, não vale. Isso já é crueldade.

DIAGNÓSTICO: Indefinido. Preciso da ajuda de vocês leitores, para diagnosticar o mancebo. Apelo aos leitores que já passaram por isso, seja na situação de "jogador" ou seja na pele da BRID.

TRATAMENTO EFETUADO: Numa noite, decidi que ele teria de fazer uma escolha. Coloquei minha lingerie mais irresistível, passei o óleo de capim-santo atrás da orelha, tomei um gole generoso de bourbon e comecei a andar pela sala, só de lingeirie (não MIM julguém parte IV - A Saga final), onde ele jogava um jogo muito dinâmico de pescaria. Quando ele me pediu um "tempinho" até poder me dar atenção, eu explodi.

Eu: Você vai ter de escolher. Este videogame ou eu.

Ele: Você tá de brincadeira, né? Não seja infantil!

(reparem que ele deixa de lado um costume adulto deveras prazeroso, o "coitus libidinosus" para jogar pescaria virtual e eu sou chamada de infantil.)

Sei que eu, calmamente me vesti, arrumei o cabelo, me "pintei", disse "tchau doido!" e fui embora. Durante todo este trâmite, ele continuou pescando. Peixes. Virtuais. Ao passar pelo portão do prédio, ouço uma voz distante chamar meu nome. Era ele, da sacada do sétimo andar. Tenho um nome composto, não muito comum, então logo soube que era de fato comigo:

Ele: Você tem certeza do que está fazendo?

Eu: O que eu estou fazendo?

Ele: Tá indo embora. Pára de ser criança e volta aqui, antes que eu vá até aí te buscar.

Eu: Você não viria, está de cueca (ele estava de samba-canção, mas eu quis deixa-lo desnorteado). Quer saber? Vai pescar!

Ele entrou, meio sem-graça, já que o porteiro, o síndico, e algumas crianças da quadra estavam apreciando o momento. Hoje em dia, não nos falamos, sequer nos cumprimentamos e, fiquei sabendo pela boca miúda que ele diz que EU o deixei, SEM QUE HOUVESSE MOTIVO ALGUM para isso.

Deixemos que ele acredite nisso.

Nota da Autora: Quero deixar claro que eu tentei argumentar com o Doido antes de apelar para o show de American Bar e depois dar uma de louca indo embora. Ao tentar conversar, fui taxada de "carente" e ganhei uma caixa de chocolates (de novo) para "não ficar triste".

FIM.


Inaugurando um espaço todo especial aqui, estão as fofas das meninas do BLOGUEIRAS FEMINISTAS, que são umas delicinhas e além de lindas e inteligentes, batem um bolão, então a nossa sugestão da semana é o blog delas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O caso da Doida Descuidada

Pessoas todas,

Estava eu, tentando redigir o post de hoje aqui no "siviço" quando uma queda de luz acontece e me pega no meio do famigerado texto.

Resultado: Perdi tudo.

Podem me chamar de descuidada, sim, pq eu não tinha salvado nada. Quase chorei, já que era um post longo, destes que levam um certo tempo para ler. Como aqui no meu trabalho eu sou paga para fazer outras coisas, achei por bem (e para manutenção do meu cargo e emprego) deixar para reescrevê-lo amanhã.

Conto com a colaboração (e solidariedade) de todos.

Beijo grande e não deixem de voltar amanhã, combinado? Combinado!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O caso do Doido Mirim

Descobri este final de semana que "amores são efêmeros". Nem me perguntem a razão exata, mas de qualquer forma, um pouquinho de filosofia de botequim não faz mal a ninguém.


Gostaria muito de agradecer a nossa leitora "Cacá" que não deixou nenhum link para podermos identificá-la, mas que leu TODO o "Sou Para-Raio de Doido" e deixou comentários em vários textos. Lee e eu ficamos muito felizes que você tenha gostado do nosso espaço, Cacá! Volte sempre e divulgue para as amigas.


Hoje eu vou contar um caso diferente. As vezes, nós nos deparamos com atitudes de terceiros na nossa vida, que provavelmente tiveram uma raiz lá no passado distante, quando perdemos o primeiro dentinho, ou até mesmo antes disso.


Pouca gente sabe, mas eu tenho um afilhado, filho de um dos meus primos mais próximos, que tem a mesma idade que eu. Fomos criados juntos e, quando ele decidiu que não era maduro o suficiente para ser pai, era um pouco tarde, e ele já era pai. Ele adora ser pai, mas em algumas ocasiões, em que é necessário levar o guri em alguma festividade da escola, prestigiar o evento, e discutir marca de guaches atóxicos com outros pais, ele falha miseravelmente. Não o culpo, eu também falharia.


Deu-se que, neste fim de semana seria a primeira festa junina do garoto, que, recém chegado de outro estado, precisa fazer vínculos no colégio novo e a designada para este grande evento foi nada menos do que eu, Bridget Jones, 30 anos e experiência ZERO em festinhas escolares como acompanhante de discente com menos de 16 anos. Você pode me dizer que eu poderia ter negado, dito que ia passar henna no cabelo e o diabo aquático, mas o guri parecia animado. Tive pena. Encarei de frente e fui.


CASO CLINICO: Indivíduo do sexo masculino, 4 anos e onze meses, olhos verdes, cabelos loirinhos, lisinhos, quase toda a primeira dentição completa (sem cáries), um metro e pouquinho de altura, cursando o pré-primário de uma tradicional escola paulistana.


Dilema - A Fantasia: Ele não queria colocar a tal roupa de caipira e me disse que poderia ser "qualquer fantasia". Acreditei. Deixei de lado a idéia de fazer-lhe um cavanhaque falso com delineador para olhos e decidimos juntos que ele iria de Obi Wan Kenobi. Até achei melhor, já que estava frio e o capuz o protegeria.


Chegando lá, senti-me um pouco desconfortável no começo, mas logo fui puxada por uma roda de pais alegres e orgulhosos que apontavam seus rebentos correndo pelo elegante pátio da escola, decorado com originais bandeirinhas em papel de seda. No momento em que eles entabularam uma discussão acalorada sobre marcas de guache atóxico eu entendi o desespero do meu primo em freqüentar tais eventos (a filha de um deles COMIA guache e eles discutiam que as marcas poderiam colocar um "sabor" ruim nas tintas para "desestimular" o "consumo". Eu sequer sabia que guache tinha gosto bom.).


Afastei-me e percebi os preparativos para a tal da Quadrilha. Perguntei docemente ao meu afilhado, aquele menino que eu julgava tão cheio de caráter infantil, se ele não iria dançar. Ele, secamente me respondeu: não! E voltou a correr com sua capa e seu sabre de luz.


Alguns minutos depois, aparece uma pobre mãe, com sua filha desamparada. A menina tinha um cabelinho preto brilhante, com duas trancinhas, rostinho rechonchudo, narizinho empinado, olhinhos molhados e as mãozinhas sujas de maquiagem por ter secado os olhos. A menina era linda, mas chorava com uma bocona gigantesca e uma amargura que eu só tinha visto em gente grande, viu? A mãe da mocinha disse:


- Olha, seu filho não quer dançar com a minha filha Sofia e ela quer muito dançar com ele. Você não teria como convencê-lo? Eles ensaiaram durante todo o mês e ele não se opôs a dançar com ela antes. Teria como você tentar falar com ele?


Lógico que naquele mesmo momento eu fiquei penalizada com a garotinha, chamei o garoto de lado e perguntei se ele queria dançar com ela. Houve o seguinte diálogo:


Obi Wan: Não queria e não quero. Ela é boba, desenha o sol pela metade (?) e pinta de azul (Leila Lopes, oi?). O sol não é azul. Ela não gosta de sentar na grama (?) e um dia mordeu o Juliano. Não quero que ela me morda.


Eu: E por que você não falou que não queria dançar?


Obi Wan: Não sei.


Ele não sabia.


Tão pequeno e já estava passando pelo primeiro dilema masculino da sua vida. Como dizer que não quer? Como dizer que não pode? Como dizer que não dá? Como? Falta de coragem? Talvez. Falta de certeza? Também é uma hipótese. Mas uma coisa é certa: com o tempo, ela se esquecerá do episódio, ele fará de conta que nada aconteceu e nenhum deles terá passado pelo constrangimento de ter sabido da verdade e nem do desconforto de ter dito claramente o que ela precisava ouvir.


Não, eu não acho que uma menininha de 5 anos precise ouvir da boca de um rapazinho metido a esperto que não quer ser o parzinho dela na Quadrilha. Ela ainda vai ter muito tempo para se iludir, chorar, ouvir verdades, dizer verdades e se decepcionar com a realidade dos fatos. Mas este fato isolado, me fez perceber, que nem sempre todas as coisas serão ditas.


As vezes, precisamos ouvir os fatos como eles são. Precisamos ouvir com todas as letras. Não dizer todas as palavras que precisam ser ditas, claramente, só obscurece a situação e torna aquilo maior, mais fundo, catártico algumas vezes. Não adianta apenas vestir uma fantasia de Obi Wan, é preciso deixar bem claro como são as coisas. As pessoas tem o direito de saber das coisas como elas são, inclusive para não tomar decisões equivocadas. Lembram do Kundera? "A vida é uma peça de teatro em que atuamos sem ensaio e sem chance de refazer as cenas."


Eu decidi que não vou mais deixar coisas para serem ditas e quero também ouvir tudo o que as pessoas tem para me dizer. Quero ter certeza da preferência dele por ela e não por mim. Quero estar ciente de que eu não causo mais o furor de antes. Quero saber quando ele não quer ir comigo ver um amigo tocar ou quando prefere um restaurante ao outro que eu sugeri. E o mais importante: quero tentar resolver estes problemas e, se não for possível, quero deixar o relacionamento na hora certa, sem forçar barras, com a certeza que eu tentei fazer direito. Com a certeza de que eu tentei.


Meu afilhado não dançou com a Sofia. Eu nunca o obrigaria a fazer o que não quer. Ele vai aprender sozinho que dizer o que sente, magoa menos do que ignorar. Mas uma coisa eu percebi e fiquei orgulhosa: Sem que ninguém dissesse nada, ele se sentiu imensamente incomodado com as lágrimas da garotinha e foi lá consolá-la com seu sabre de luz.




PS: Continuamos com a Campanha "Divulgue o Para-Raio em seu Twitter e Facebook". Ficamos gratas!

Update: Achei um jeito de responder os comentários, portanto: COMENTEM, meu povo!