segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O caso do Doido Sem Nome


Estou solteira até segunda ordem. Já fazia algum tempo que eu não me aventurava pelos caminhos tortuosos da solteirice e tinha me esquecido que junta com grandes poderes (no caso, o da solteirice) vem grandes responsabilidades (o de arranjar novamente alguém). O caso é que eu, meio que esqueci deste detalhe desde que terminei com meu último doido (um dia conto – é dramático). Nunca mais freqüentei baladinhas específicas, destas em que a gente vai para ver, ser vista, escolher e pegar na vitrine.



Deu-se que minhas amigas (incluindo a Lee, fuzilem-na!), decidiram que era dia de me levar para o abatedouro. Não estou recuperada ainda do final da minha relação mal-acabada e também ainda não me decidi a quantas anda meu revival com o "Doido Remanescente". Confusão: este seria meu nome no dia de hoje. Estou tão cheia dúvidas e perguntas para mim mesma que mal sei exatamente como me chamo.



O dia todo do sábado foi aquele ritual sagrado que há tempos eu não vivia. Com entusiasmo forçado, me vi escolhendo entre os visuais de sempre. Saia curta (nem tão curta, ok?) e bota (O fato de eu medir menos que um hobbit não favorece este look) e vestido preto básico com salto agulha. Os dois fizeram sentir-me uma mercadoria exposta para apreciação. Escolhi o vestido por ser mais confortável. Sensação estranha, muito estranha. Não sou feminista nem nada, como pode estar parecendo, adoro me arrumar. Mas arrumar-se para uma pessoa específica é bem mais gostoso. Os cuidados, as peculiaridades, o perfume nos lugares certos, a escolha da lingerie... tudo isso é bem mais prazeroso quando estamos pensando num doido em especial. Aquele que tem nome, sobrenome, profissão e cheiro. Mas enfim, perdi o foco. Onde estávamos?



Ah, sim. Fomos para a baladinha. Som eletrônico, ambiente cheio de luzes hipnóticas, fumaça, drinks coloridos e os rapazes todos numa vibe "sou lindo", cheios de auto-confiança. Achei peculiar.



Eu gosto de dançar, mas aquele salto não estava favorecendo a minha performance de Lady Gaga. Avisei as meninas e fui para o balcão pegar uma Sagatiba pura. Enquanto eu tentava, com o auxílio do alcool, me desvencilhar dos pensamentos práticos sobre minha vida amorosa, arruinada e cheia de histórias sem final, um rapazinho se aproxima de mim e coloca a mão na minha cintura.



Mão. Na. Cintura.



Dei aquela reboladinha estratégica, meio que tentando me enfiar embaixo do balcão para que ele retirasse a mão biônica da minha circunferência, mas o moço fingiu que não reparou minha manobra e foi logo me olhando nos olhos, como se fosse me interrogar. Depois virou um olhar esquisito que se dividia entre cachorro faminto no quintal da vizinha e psicótico alucinado. Ele disse no meu ouvido:



- Você é linda.



Agradeci o elogio com um aceno de cabeça e ele veio de novo fungar no meu pescoço dizendo algo que eu decodifiquei como:



- A gente pode conversar?



Eu estava ali, sem nada para fazer além de gemer (ui) pelos meus pobres dedinhos do pé, esmagados pelo sapato de salto Luis XV, meia pata. Também poderia ficar lamentando meu pouco talento na escolha de homens disponíveis para relacionamento sério. Ou poderia dar uma chance ao mancebo e conversar com ele. Vai que ele gosta de Monty Python?



No exato instante em que eu disse "sim", o rapaz já veio com aquela boca entreaberta, cheia de dentes, língua e saliva, aproximando-se de minha cavidade bucal, neste momento também aberta, mas de espanto. Ele já veio pronto para matar Napoleão, sem ao menos ter enfrentado (e derrotado) meu exército. Neste momento, ativei meus mecanismos de defesa, afastei o gajo de forma delicada e disse:



- Mocinho, você nem sabe meu nome!



Ele respondeu, de forma pedante e tristemente natural:



- E o nome importa?



Naquele momento, eu o deixei ali, parado. Saí do balcão com aquela pergunta na minha cabeça.



Nome importa, sim.



Aí eu percebi uma coisa: toda boca, não é mais qualquer boca. Eu preciso antes, gostar do dono da boca e o dono da boca precisa ter nome. Esta boca, tem que ter dito coisas legais, que tenham me impressionado, caso contrário, ela é só uma boca. Uma boca cheia de dentes, língua e saliva, que não me atrai, que não me interessa, que não me faz bem como fazia antes. Eu não fiquei moralista, nem romântica, nem me tornei uma sonhadora, nada disso. O que aconteceu é que eu, agora, não consigo mais pensar numa boca sem contexto.



O moço era bonito. Mais tarde, soube que se chamava Flávio, tinha 26 anos, era engenheiro civil e gostava de cinema. Ele veio se desculpar mais para o final da noite, já acompanhado, porém gentil. Entendi, desculpei e até disse meu nome (o verdadeiro, mas apenas o primeiro – tenho um nome composto, incomum e meio ultrapassado).



Eu tive a minha época de provar todas as bocas, sem contexto. Algumas pessoas vão entender que eu agora só transo por amor, só beijo com paixão e só fico com quem eu já conheça. Na verdade, é um pouco mais complicado que isso. O fato é que agora, a atração não acontece por acaso, e atração, nada tem a ver com amor, paixão ou "já conhecer alguém".



Acho que hoje em dia, a "quimica" tem uma fórmula um pouco mais complexa que envolve Monty Pyhton, bom humor e um ingrediente secreto que eu nem sei o nome ainda. Vocês sabem?



Para ler ouvindo: As time goes by – do filme Casablanca.



Nota da autora: Divulguem se curtirem.



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28 psicanalistas diagnosticaram:

Toshiba disse...

Hum.. o bom é que eu sempre aprendo cantadas novas lendo os textos hahah
Essa de chegar com a mão na cintura funciona então. Só precisa cadenciar melhor o diálogo!
Aperfeiçoarei-a.

Eu já tenho um problema, fico conversando com as meninas, parece mais que quero fazer amizade que beijar.. to errado..

Cecilia disse...

@Brid, otimo post! Concordo em gênero, número e grau! A gente vai ficando assim mais...madura...e vai vendo que as coisas são mais profundas que uma simples boca, que uma simples noite. Que ficar com alguém lindo uma noite, também não ajuda em nada a carência nem a tristeza e que se relacionar com pessoas, principalmente seus amigos, isso sim tras uma felicidade e um consolo real para a dor no coração!

@Toshiba Oi!!! Tudo bem? Vc por aqui?! Seguinte, continua no approach da amizadji que vc ganha mais! rs

Gusta Fernandes disse...

Acho que estou nessa vibe também, a gente sempre acaba entrando nessa depois de sair de relacionamento mal acabado ou dramático... tudo tem um novo sentido.

Pontos fortes do texto: Fazendo a Lady Gaga na pista de dança e a Sagatiba no balcão... kkkk... se jogou... kkkk...

Ponto negativo: a boca cheia de dente se aproximando... só quem já passou por isso sabe como é. TENSO HAHAHAHA

Beijos!

Toshiba disse...

@Cecilia Hahaha que coincidência boa nos comunicarmos por aqui! Adoro os textos da Brid, e sempre divulgo por aí..
Saudades de encontrar você no horário do almoço, lá na Dumas! E obrigado pelo conselho.. vou seguir =)

Vanessa disse...

Concordo: para ser legal, tem que ter algum envolvimento, além do físico.
Aaah, concordo com o pessoal que disse em comentários de outros posts, que as postagens estão mais maduras!
Gosto daqui.
Beijo

Luciana disse...

Brid e Lee (suas lindas)
Vcs continuam incríveis, passo toda segunda religiosamente.
O texto está muito bom direto a realidade, e estou gostando muito desta nova Brid.
Fico aguardando quando sairão textos sobre os doidos que viraram ex pq eles são sempre muito tocantes, falam de uma realidade que todas nós vivemos, pq é o momento em que vcs se permitem sangrar e sabemos o quanto isto dói, a Lee tem postado menos mas gosto muito dela escrevendo e tenho sentido, como leitora, que depois do ex - Mr Holloway ela criou uma distancia do blog.
Como leitora assídua sinto falta das duas e torço para que vcs estejam ótimas, sempre...
Bjssssssssssss

Camila disse...

Brid, eu sou meio careta, admito. Nunca consegui aceitar essa ideia de "nem te vi, já gostei de você", nem naquela época mais louca da adolescência. Para ficar com alguém eu precisava saber o nome (sempre!) e, principalmente, me interessar pela pessoa (a tal da química). Beijar alguém que eu nunca vi sempre me pareceu muito estranho.

Eu tenho certeza de que estou ficando velha. Ou que sempre fui old-fashioned, sei lá. Simplesmente não acho legal esse approach violento de balada.

You're not alone, Brid! ;)

Morena Grisa disse...

Brid sua linda!!!
Acho que nao eh caretice e muito menos maturidade, acredito que sao fases...vc simplesmente nao estah na vibe de sair beijando bocas alheias...soh isso.
Mas acho super valido querer saber o nome (as vezes nao conto o meu verdadeiro), mas como eu disse eh tudo uma questao da vibe.
Bjks lindona!

Fabiana disse...

Te entendo, viu ?
Nunca soube ficar com o cara só pq ele é gostoso. Preciso de conteúdo, preciso sentir tesão. Pra mim o tesão só vem depois de uma (ou mais de uma) boa conversa.

Beijo da @fabiruiva

Josyê disse...

"Eu preciso antes, gostar do dono da boca e o dono da boca precisa ter nome. Esta boca, tem que ter dito coisas legais, que tenham me impressionado, caso contrário, ela é só uma boca. Uma boca cheia de dentes, língua e saliva, que não me atrai, que não me interessa, que não me faz bem como fazia antes." Concordo contigo, bem dessa.
E sobre o que mais que o cara tem que ter, eu tbm não sei o meu,rs, mas sei que além das qualidades básicas, tem que ter esse diferencial, que acho que varia de pessoa pra pessoa. :)

Isabela disse...

Brid, tenho que confessar: sou péssima para nomes. Esqueço mesmo! Mas não estou orgulhosa disso, ok? rs
E concordo em gênero, número e grau: É muito melhor se arrumar para um doido específico, além de ser um desafio, né? rs

Como sempre, divulgando muito no twitter! rs
Beijos

Káh disse...

Heey Brid sua linda!

Entendo muito o que tu quis dizer minha gatinha.Vivo isso por aí constantemente,e acho que talvez em função da minha idade eu pense ser mais comum.
E também eu sou uma maluca meio fora de contexto sabe,conheci o cara mais genial da minha vida,no auge dos meus 17 aninhos,atravessando a rua indo num sebo comprar livros .(L)

Acredito que tudo são fases.Nos aprimoramos,amadurecemos e vemos que se as coisas tem um contexto,se tornam muito mais interessantes.Concordo contigo nisso,afinal é muito mais interessante a boca ter uma história,uma personalidade ,do que ser algo solto por aí,que da maneira que chegou,vai partir caindo num sumiço.

Pra variar,teu post tava genial gata.Beijoo

P.S: Esse menino do primeiro comments, o Toshiba. Guri ,segue nesse papo,nessa amizade que é muito mais delícia viu.A coisa tem mais chance de fluir e acontecer bunita bunita.

Dayne Dantas disse...

Cara, o que eu vou dizer?
Quero colar tudo aqui pq eu gostei demais, demais, demais.

Como a gente falou agora a pouco, não sei se isso é fase, coisa de 'certa idade' ou canseira da vida vagabunda que eles doidos querem nos dar.

Lee Holloway disse...

Brid,

Pode mandar me fuzilar, mas tudo que faço é pensando no seu entretenimento. rs

Infelizmente, essa modinha besta das bocas sem nome perpetuou, né?

Também já vi graça nisso, já fiz parte do anonimato, mas nada é melhor do que conhecer alguém de fato.

Boca tem que ter nome, tem que gostar da minha parte imperfeita e ruim (vc sabe do que estou falando) e precisa admitir que não dá pra transbordar felicidade sempre.

Muá!

Lee Holloway disse...

LUCIANA: que querida vc! ;)

Obrigada por sempre vir aqui, por torcer por nós e curtir os textos!

De fato, ando meio afastada do blog já há algum tempo. Tenho postado menos desde que voltei a estudar. Coincidentemente, foi na mesma época em que Mr. Holloway deixou de ser Mr. Holloway. Mas amo muito este blog, ele é parte de mim, parte do que fui e parte do que estou.

Prometo tentar ser mais assídua aqui. Estou devendo algumas histórias que foram importantes pra mim e que, por um motivo qualquer (ou não tão qualquer assim), acabaram.

Um beijo!

Lekkerding. disse...

Tá certa, ué. A boca tem que ter contexto e atestado de saúde emitido pela Colgate. Vai saber que espécies de varicelas mutantes andam carregando por aí.

Anônimo disse...

vc deve ser uma menina bonita e muito inteligente. tudo o que leio seu me faz ficar a cada dia mais apaixonado, mas vc nunca olharia para mim. não sou loiro.

Anônimo disse...

Lindo post, Brid! Como todos.

Rafa Kusznievicz disse...

Lendo o post, me veio à tona uma coisa que há muito - muito mesmo - me faz questionar a humanidade.
A Brid, tão madura nessas colocações (me empresta seu ui? agradecido!), falou uma coisa muito importante: parecemos mercadorias, sempre prontas para recebermos avaliações. Nosso emocional agradece, sempre! (mentira)

E aí que pra melhorar tudo, tem sempre uma boca anônima aqui, outra ali, que querem a todo custo sugar nossas famigeradas almas imaculadas. E somos envolvidos por esse clima. Nos deixamos fazer parte desse jogo de mercadoria e bocas anônimas.
Mas só até que percebemos, como a Brid percebeu, que uma boca tem mais que trinta e poucos dentes, uma língua e um depósito de cuspe.
Deve haver sentimento antes do beijo, deve haver entrosamento, deve haver, se possível, amor antes do beijo.
Me identifiquei com a Brid falando em passar o perfume nos lugares certos para uma pessoa especial.
É diferente, né? Se vc passa o perfume para o doido que gosta de vc, ele vai sentir seu cheiro e sorrir. Num caso diferente, o doido nem vai perceber que vc está usando perfume. São os detalhes que mudam tudo. Bocas anônimas não conhecem nossos detalhes...

Vou seguir o pessoal aqui e dizer a mesma coisa dos posts. Realmente estão mais maduros. (mas nenhuma maturidade superará o Caso do Doido Empalhado! é the best)

Dani Antunes disse...

Ah, Brid. Pô! Eu com certeza seria uma das amigas que te arrastaram pra night. Ficar remoendo fossa ng merece.

E, oh, pensa pelo lado bom: pelo menos ele se retratou.

E, apesar de eu ser completamente "da night" (sou carioca e me recuso a falar balada; beijo, SUA LINDA!) e de vez em quando adotar a opção da boca "inominável" (haha) faz bem pelo que temos pra contar depois. Mas, fato: uma merda não ter um alguém pra quem se arrumar mesmo. Eu que sei.

Ótimo post.

Beijo

Diane Lorde disse...

Também teria dado um "passa fora" no camarada, e ainda seria mais grosseira quando ele fez a pergunta se nome importa:
Importa sim, ou devo chamá-lo apenas de f.d.p?rsrs

Marcella disse...

Cheguei agora,não entendi se é ficção ou realidade..mas a guria que escreveu este post pode ser minha amiga de infância, até $ te empresto!Você me descreveu,garota,ou melhor senti que não sou um ET no mundo,não sou só eu que fica meio enfadada de se arrumar para uma balada,mas tem que ir porque a vida continua após um pé na bonds, não sou só eu que não quero sair beijando geral,mesmo o consenso comum me tachando de puritana...Uau,clap clap!

Sisa disse...

Sim, sim, contexto é importante a certa altura da vida (sou balzaca, beijo!) e é importante que a boca consiga articular palavras além de "véi!" e "só". Mas também acho pertinente que tenha 32 dentes (ok, abro exceção pra quem tenha 28, afinal os terceiros molares muitas vezes não são bem indos).
Beijos e votos de que você ache uma boca que ache importante pronunciar o nome (e que saiba pronunciar o seu no ouvidinho na hora certa, tb é bem vindo).

Ge disse...

acho que isso tem a ver mesmo com o fato de que se a boca vier sem o contexto, não faz diferença investir na produção e ficar em casa comendo pipoca e sozinha. no fim, não é de boca que a gente precisa. é do contexto.

Dzu disse...

Querida,
Realmente é normal precisarmos de mais profundidade nas relações humanas, inclusive as superficiais.
Faz-nos realmente viver o momento.
Ok, seu nome é "Flavio". O meu "Maria Joaquina", você gosta de cinema? Ahh, eu adoro música...
Este blá, blá, blá faz o momento parecer real, parecer que estou vivendo e não em um sonho erótico do qual quando acordo não lembro mais de nada, só de bocas, saliva e por ai vai.
Não que estas coisas sejam ruins, só precisam as vezes serem mais reais. Acho que no final o que me incomoda é a falta de ‘PRESENÇA”. Não estou pedindo que me liguem amanhã, que lembrem do meu nome amanhã, só que este agora, pode ser meu? Esteja comigo enquanto tenta me beijar, é o mínimo para quem quer ganhar um beijo meu, me dar o seu tempo antes disto.
Na época do the DOORS era melhor, eles pelo menos queriam saber o nome:
“Hello,
I love you.
Won't you tell me your name?”

Bjim

Gabriela Barbosa disse...

Muita gente está assim hoje:beijando qualquer boca!Nunca gostei disso!Isso é típico de gente que quer quantidade e não qualidade!É típico das micaretas também!

Emanuelle disse...

Olha, sexta feira sim, sexta feira não, passo por uma dessas do doido sem nome. Divulguei seu blog, adorei a postagem (:

Gabrielle disse...

Nossa, andei meio triste extamente hj, justamente por isso... As bocas com contexto andam escassas, e pensei que o problema fosse eu. "Estou ficando velha...", pensei hj. Estou, mas acho que também ando mais esperta...