Tenho certeza de que muitos de vocês já escreveram e-mails que nunca foram enviados. E-mails sinceros que nunca encontraram seus destinatários. Não tenho muitos deles porque quase sempre prefiro enviar e aguentar as consequências das minhas palavras nem sempre doces. Respostas? Às vezes, recebo. Muitas vezes, não.
Mas este texto é um desses e-mails que ainda sobraram na caixa de saída. E antes de apagar, porque enviar hoje já não faz nenhum sentido, resolvi publicá-lo aqui.
Caso clínico:
Homem, 20 e poucos anos. Mulher, 20 e poucos anos.
Inevitável criar expectativas e vivenciar sentimentos fortes quando conhecemos alguém. Por isso, não me julgue. Conhecer alguém é fazer uma aposta com você mesmo, de que você vai, enfim, fazer uma escolha certa.
Quando te conheci, não foi diferente. Falar com você era voltar a ser uma menina tímida, que estremecia com cada frase sua em que você demonstrava que o interesse era recíproco.
Éramos bons juntos. Tínhamos sintonia, queríamos saber mais, desejávamos nos conhecer e apostar. Fazíamos planos. Imaginávamos situações, gestos, palavras trocadas, momentos juntos que nos fariam felizes. E fazíamos promessas, embora fazer promessas seja sempre um clichê.
Para você, eu era bonita, meiga, encantadoramente tímida e cheia de facetas a serem desvendadas. E eu percebia que você queria me descobrir porque foram muitos dias de conversas e centenas de perguntas.
Para mim, você era um eterno curioso, alguém que me investigava pra me revelar, pra ajudar a me construir. Você era bonito, encantadoramente convencido e divertido, mesmo nos dias de mau humor. E me deixava orgulhosa quando conjugava o verbo “pentear” corretamente. Sim, éramos muito bons juntos.
Não, nunca fomos inteiros um para o outro. Conscientemente ou não, você sempre impunha barreiras que me impediam de saber da sua vida de todo dia. E meu comportamento era um reflexo do seu. Vamos colocar a culpa no medo ou na falta de vontade? Sempre faltou admitir o que sentíamos um pelo outro. Ou talvez não sentíssemos nada e não nos conhecemos por inteiro porque aquela relação que tínhamos era o máximo a que queríamos chegar. Ainda assim, éramos bons juntos.
Mas, de repente, num dia frio aqui em São Paulo, eu percebi que pra você eu já não era mais tão interessante, já não era mais tão bonita e já não te despertava mais nenhuma curiosidade.
Como uma foto antiga que vai perdendo a vivacidade e amarelando com o tempo, nossa relação esmaeceu. Os dias se passaram. Coisas aconteceram na sua vida, na minha vida, mas nada aconteceu na nossa vida porque nossas vidas nunca se cruzaram de fato. Só existia a sua vida aí, e a minha vida aqui. Inevitavelmente, nossas conversas foram se tornando insossas. Não fizemos mais planos e mesmo aqueles sonhos guardados com tanto carinho foram esquecidos.
Diagnóstico:
Ocorreu um desgaste comum aos relacionamentos que são sustentados por ligações frágeis.
Tratamento:
Existiam dois tipos de tratamento para esta história que não estava mais dando certo:
- Poderíamos admitir o fim.
- Poderíamos tentar um recomeço, buscando alguma coisa no passado da qual sentíamos saudades e que nos fizesse desejar um retorno ao que éramos um para o outro lá no início.
O que aconteceu?
Doeu quando finalmente percebi que você não sentia falta das nossas conversas, de saber dos meus gostos e da minha vida. Doeu porque eu sou muito mais do que aquilo que eu te contava e você nem se dava conta disso. Acho que sempre fui uma personagem muito plana para você. Doeu porque eu tinha uma grande parcela de culpa nesse seu comportamento. Doeu porque eu falhei com você e porque você foi implacável com meu erro.
Chega uma hora em que as coisas acabam e que a gente tem de perceber. Mesmo que a gente não queira. Mesmo que o nosso desejo seja o de voltar àquelas conversas de antes. Porque quando acaba, a única coisa que nos resta fazer é pegar a caneta pra desenhar um pontinho ao lado da nossa história.
“Os términos são bonitos”, vivem dizendo por aí. Mas bonito mesmo foi o início, quando seu olhar pousou em mim pela primeira vez. Bonito mesmo foi o meio, quando nos divertíamos juntos e eu achava que poderíamos ser muito mais do que éramos.
O fim? O fim é o vazio, é a ausência, é o estranhamento. Definitivamente, não é bonito.
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Para ler ouvindo Country Feedback, R.E.M. (aqui)

33 psicanalistas diagnosticaram:
Ok, me vi nessas linhas. sempre tenho medo do que o futuro em uma realação amorosa pode causar. "o pra sempre sempre acaba".
Foi lindo, Lee.
Beijos
LEE: Eu compreendo perfeitamente o que vc quis dizer aí. O texto está primorosamente perfeito, mas o que ele quis dizr é o que mais toca. Já vivi coisas assim, parecidas.
Falar do fim é difcícil.
Falar do começo, qdo chegamos ao fim é muito mais difícil.
Perguntar-se o que fizemos de errado, qdo o fim é inevitável machuca mais que tudo.
Acabou, mas nunca acaba. A gente sabe que vai sempre ficar um restinho de qlq coisa pra podermos sentir, ao menos aquela coisinha boa do começo de novo, só pra recordar.
Um beijo e fica bem!
PS: Voltou com tudo, hein?
As nossas expectativas, são sempre um problema. Por que é tão difícil não criá-las exageradamente?
Adorei o texto, muito bem escrito. Me fez sentir uma dorzinha.
Beijos. Que bom que voltou.
Acho que depois deste post eu deveria escrever um email e mandar pra vcs... rs... As imagens no final são de um filme ótimo, "500 dias com ela". Gosto deste filme porque além de ser contado pela ótica do homem apaixonado, aprendi que depois de "Summer" sempre tem "Autumn". E ele também é contado olhando pra trás. E dói olhar pro começo, tentar achar as falhas e encontrar os momentos que eternizaremos.
Boa volta, Lee!!
Também sou mais uma que me vi nessas lindas linhas.
Por coincidência, hoje comentava com uma amiga que 12 anos após o "termino do que efetivamente não começou" ainda sinto um calafrio quando lembro dele, e pior, ainda dói.
Amada-Belém-PA
O fim não é nada bonito, mesmo que seja de comum acordo, entre ambos é sempre triste.
Noh
Pura poesia.
E acabei molhando os olhos ao ler.
Sabe o que é bonito? Quando a gente encontra alguém que faz cada aparente fim ser, na verdade, um recomeço. Nada de resgatar o passado, mas sim de buscar o futuro. Isso é bonito, Lee, e é possível!
Bonito também é o texto, e a coragem de escrever (mesmo que não tenha sido enviado).
Mais bonitos ainda são o filme e a música presentes no post. Parabéns.
Beijos
DÊCO:
Obrigada!
Dá um medinho mesmo, mas a gente tem que tomar cuidado para que esse medo não acabe interferindo no relacionamento. Apesar de tudo, acho que a melhor maneira de fazer valer a aposta em alguém é sendo inteiro (embora eu não tenha sido com o doido deste post e vice-versa).
Beijo!
BRID:
Awn, obrigada, amora!
É, acabou, mas sempre bate aquela melancolia.
Quando estamos envolvidos, não conseguimos enxergar de que maneira nossas atitudes vão se refletir mais pra frente. Não temos como testar, não é? De qualquer forma, acho que nos resta torcer para que, num próximo relacionamento, a gente se lembre dos erros para tentar não errar novamente.
Beijocas!
VANESSA:
Que bom que gostou, apesar do tom triste!
Acho que é difícil não exagerar nas expectativas porque, no fundo, a gente sempre acha que é possível viver um romance de filme. Porque a gente acha que merece o melhor da outra pessoa.
Beijinho!
Acho que de todos os posts que li e comentei aqui,foi o primeiro que me fez chorar.
Pq me vi nele.Me encontrei sabe.Esses inícios lindos e os finais nem tão bonitos.Ou ainda pq me fez tomar consciência de que no meu caso,esse fim ainda tá vivinho e remoendo. E o mundo e os jornais não me deixam esquecer a criatura.
Texto emocionante,como disse a Brid " primorosamente perfeito"
Lindo Lee. E digno,muito digno!
Quando eu crescer,quero ser como vc flor.
Beijo
CACÁ:
Mande o email! rs
Eu adorei “500 dias com ela” e confesso que eu assisti no cinema, sozinha, e chorei horrores. Fiquei com vergonha de mim mesma. Mas no dia em que eu assisti ao filme, a história pegou no meu ponto mais fraco. Doeu me ver na tela. Mas é como vc disse, sempre tem “Autumn” depois. ;-)
Beijo e obrigada!
Nossa, lendo essas palavras tão cuidadosas, essas palavras tão honestas eu fiquei pensando em um e-mail enviado por mim e que nunca recebeu respostas. Esse caso parece tanto, mas tanto com essa história minha que de repente, PUF, de uma hora para a outra, do dia para a noite, acabou.
Mas uma coisa que você disse me deixou pensando: é a fragilidade dos laços, essa fragilidade faz com que se rompam facilmente, faz com que qualquer desentendimento, qualquer erro seja uma boa razão.
É triste quando isso acontece. Mas só acontece porque a gente tenta.
Adorei, foi uma delicia te ler!
Bjs
AMADA-BELÉM-PA:
Doze anos? É tempo, hein? Mas existem histórias que ficam mesmo, não tem como ser diferente.
Beijo!
NOH:
Tem gente que consegue ver a beleza de um momento triste. Eu, sinceramente, só consigo perceber isso na ficção.
Beijo!
ANÔNIMO:
Obrigada! A poesia, sim, existe nos momentos tristes. Beijo.
ISABELA:
Obrigada! E eu amo o filme e a música!
Acho que quando a gente tem uma ligação forte com alguém, sempre é possível um recomeço. Vc tem razão: isso sim é bonito. Mais bonito do que o próprio início.
Beijo!
KÁH:
Awn, obrigada! Mas que você seja muito, muito melhor! ;-)
Acho que não imaginei que este texto, tão pessoal, pudesse proporcionar tamanha identificação com vocês.
Acho que essa fase em que vc está é a mais dolorosa mesmo. Lembro que escrevi parte deste post logo quando tudo acabou (minha intenção era enviar para o doido!) e foi muito difícil. Só consegui olhar pra ele de novo agora pra publicar aqui.
Olha, não querendo dar uma de guru de autoajuda, mas o remédio pra isso é o tempo mesmo. Trust me.
Agora... O mundo e os jornais não te deixam esquecer? Fiquei curiosa.
Beijo, querida!
TAHIANA:
Obrigada! Volte mais vezes!
Beijo!
GE:
Tive muitos e-mails sem respostas e acho que o silêncio do outro lado é sempre mais cruel do que palavras.
É muito ruim perceber, de repente, que tudo acabou para a outra pessoa. Eu me questionei muito, analisei meus erros. Mas acabei chegando à conclusão de que o problema era a fragilidade da relação mesmo. O fim, nesse caso, era inevitável.
Mas eu sempre prefiro tentar, como você disse. Mesmo que doa depois, eu vivi algo que queria muito naquele momento.
Beijos!
Acho que as pessoas dizem que o fim é bonito só porque é preciso começar algo novo, com outra luz, outra calma.
Mas ninguém quer ficar vivendo em ciclos, é melhor parar onde está bom, observar o belo, mesmo que não seja novo, enraizado e profundo é ainda mais mágico.
Amei o texto.
Beijos
Infelizmente, me vi nestas linhas, neste exato momento. Interessante é que sentimos o início do fim, mas nunca admitimos. Doí muito perceber que as coisas não são mais como eram antes, que você não faz mais parte dos planos do outro e que o interesse que o outro tinha em você não é mais o mesmo.
Beijos.
SIXX:
Obrigada!
Concordo com vc. É uma forma que as pessoas têm de dizer que é possível recomeçar e dar certo numa próxima vez...
Beijo!
RAQUEL:
A gente tenta até o último minuto ou até o momento em que o outro diga que o fim chegou.
Dói demais mesmo...
Beijo, fique bem!
Lee
o mundo e os jornais é que convivemos com amigos em comum,vamos nas mesmas festas e o infeliz além de existir,é modelo.Vou ler o jornal,tá lá o cristão em meia pagina.
E lindissimo! - pelo menos posso falar que peguei dpsokpos -
beeijo
KÁH:
É isso aí! Pelo menos era gato! rs
Beijo, fique bem!
Chorei...
Nossa tudo o que você disse sobre o que doeu, mostrou tão claro o que também doeu em mim quando eu terminei há algum tempo atrás.
Você está com alguém que não se interessa mais em nada sobre você, dói muito...
o sentimento de se sentir um lixo tomou conta de mim por um bom tempo... mas, é preciso viver.
E agradeço por ter conseguido superar, mas não consegui esquecer.
Beijos Lee e Brid.
Oi meninas, ainda lembram de mim?rs
"Doeu porque eu falhei com você e porque você foi implacável com meu erro." Disse tudo, me identifiquei demais com quase tudo nesse texto. O ponto final da minha "relação" foi mais dramático: ele se interessou por outra, mas não teve a dignidade de me contar, pra não gerar mais expectativas, mas enfim, na verdade tô descobrindo q existem mais doidos por aí do q eu podia supor...
GUSTA FERNANDES:
Dói horrores e a gente se sente a pior pessoa do mundo. A mais desinteressante, a mais feia, a mais estúpida por ainda gostar do outro.
Mas a gente supera, sim. Com tempo e com novas histórias.
Beijo-beijo!
JOSYÊ:
Sumida! Claro que lembramos de vc!
Vc disse que existem mais doidos do que vc imagina. Sabe o que existe mesmo? Mais homens covardes do que a gente acredita. Reality sucks.
Beijos!
Eu chorei, Lee. Chorei pq mais uma vez vcs me leram...
Tenho mil cartas (pq antes escrevo, só depois passo pro e-mail) nunca enviadas, mil sensações iguais a essa.
Muito lindo seu texto, querida, muito linda.
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