Lee e eu somos um tanto cruéis uma com a outra. As vezes objetivas demais. Mas fazemos isso de forma equilibrada, onde a sanidade e o bom senso imperam. Conversando sobre relações passadas, numa mesa de bar, já com alguns mililitros de alguma substância lícita, porém alucinógena e mortificante (Sagatiba com Absinto?) em nossas correntes sangüíneas, ela lançou-me o desafio, depois que eu afirmei ja ter superado TODOS os casos, relações e envolvimentos que tive. Num momento de crueldade típico de nossa amiga, ela desafiou-me a escrever sobre "Doido Pioneiro", que aqui chamaremos simplesmente de "Eddie". Ainda que eu diga, que eu grite e que eu "crame", ela não acredita que eu consiga falar dele com naturalidade e bom humor. Talvez seja pelo fato de eu me recusar a falar dele. Mas esse detalhe ficará esclarecido mais para o final do texto. Naturalidade eu garanto, já o bom humor... Confira!
CASO CLÍNICO: Homem, 2,05m de altura (a Lee pode comprovar), olhos castanhos claros, cabelos claros, já rareando, músico profissional (era músico de apoio numa banda famosa e tocava baixo numa Jazz Band, sem falar na formação acadêmica invejável – ele tinha feito mestrado em Berkeley). Eu frequentava o bar onde ele se apresentava aos sábados. Eu, num destes rompantes de comediante, decidi escrever num guardanapo uma música, que eu queria que eles tocassem. Eu nunca fazia isso, mas sabe lá deus o porquê, aquele dia eu estava inspirada e o destino estava pronto para tirar uma com a minha cara. Eu mesma entreguei a ele o guardanapo, escrito com letra de bêbada.
EDDIE (ao micofone): Recebemos aqui, um pedido especial. "You can leave your hat on" do Joe Coecker. Bem, devemos dizer que nós só tocamos esta com stripers. Se a pessoa que pediu estiver disposta, a gente toca!(Vale dizer , para quem não conhece, que esta música é um "crássico" dos American Bar's e Night Clubs, perdendo apenas para "Poison" do Alice Cooper.)
Ao dizer isto ele olhou para mim, riu e e fez a introdução da música, mas não tocou. Eu fiquei roxa, mordi o lábio, desviei os olhos e pensei: Eu quero este cara na minha cama! Não me julguem. Eu estava bêbada. E só tinha 20 anos. E estava bêbada. Com 20 anos. Bêbada. É.
Foi uma noite longa, eu estava com amigos, de carona, portanto fui embora. Mas voltei na semana seguinte, como eu fazia todas as semanas, oras! E mais uma vez, no meio da apresentação, ele tocou um trechinho da introdução da música e fez a seguinte piadinha interna: "Eu estou com vontade de tocar esta música faz uma semana. Mas preciso de motivação." Deu uma olhadela para o baterista, fez uma careta para mim e riu. Também ri, afinal, não sou de ferro, né? Mas não foi nesta noite que o conheci de fato. A brincadeirinha boba se repetiu mais algumas semanas, até que numa noite em um dos intervalos, ele foi até minha mesa, colocou uma palheta branca em frente ao meu copo e disse: "Preciso que você me devolva isso depois, pode ser?". Fiz que sim com a cabeça. E fui lá devolver depois da apresentação.
Eu queria dizer que ele foi um arrogante. Queria dizer que ele tinha um papo muito chato. Queria dizer que ele não tinha senso de humor. Mas eu não vou poder dizer. Após nove horas de conversação ininterrupta (sim, nós ficamos conversando por NOVE horas) eu pensei: Não preciso deste cara só na minha cama. Preciso deste cara na minha vida! E começou minha via crucis. Meses depois, eu era a namoradinha oficial do Eddie.
Queria poder dizer que eu tive dignidade e depois da quinta vez que encontrei ele aos beijos com alguma desconhecida no backstage, eu terminei e fui viver minha vida. Mas eu não fiz isso. Sou brasileira e não desisto nunca.
Queria poder dizer que depois do milésimo porre que ele tomou e eu tive que levá-lo para casa, dar banho, e por para dormir, eu decidi deixá-lo. Mas eu não fiz isso. Dignidade é para os fracos. E eu era praticamente o Conan da força interior. Dignidade pra quê?
Segui nesta vida. Briguei com a Lee por causa dele, afinal, "ele tinha idade, mas não era maduro. Eu precisava ajudá-lo, estar perto. Ele era brilhante, um gênio (de fato era, sem ironia), só que tinha este dois defeitinhos pequenos que eu iria consertar: Mulherengo (mas ele era músico, então, não conta) e bebia (mas ele era músico então não conta)." Sim, este parágrafo foi recheado de sarcasmo, beijos!
Certo dia, depois de quase um ano nesta vida de "Sid & Nancy", ele quis falar comigo. E disse estas palavras:
"Bridget, eu já tenho 36 anos, sou um cara que gosta da vida que tem. Eu não pretendo parar com os meus vícios, não pretendo ser pai, não pretendo me casar, não pretendo ter uma vida ortodoxa, eu gosto do que sou e gosto do que eu vou me tornar. Você tem 20 anos e tem estes sonhos, eu sei que tem. Toda menina da sua idade tem. E eu estou impedindo você de conhecer alguém que queira tudo isso com você. Blá, blá, blá garota mais incrível do mundo. Blá blá blá nunca vou esquecer como você é. Blá blá blá vai ser melhor para você."
Poderia apenas ter dito: "O problema sou eu e não você!" Eu teria entendido da mesma forma. Eu teria reagido da mesma forma. Eu não teria escutado, da mesma forma. Só anos mais tarde eu entendi exatamente o que ele quis dizer. E ele estava certo.
DIAGNÓSTICO: Como já fizemos aqui algumas vezes, vou dignosticar-me. Não precisa ser o Doutor House para saber que não era lupus. Era só a primeira vez que eu amava alguém, e como toda a primeira vez a gente nunca sabe como agir. Potencializa as sensações. Acha que é eterno. Acha que é o último. Acha que é. Só acha.
TRATAMENTO EFETUADO: Eu o apaguei da minha vida, até conseguir apagá-lo da minha mente, o que veio a acontecer algum tempo depois com um pouco de condicionamento. Ele virou uma espécie de assunto proibido. Não foi fácil, afinal foi a primeira vez que eu me condicionei a apagar alguém da minha vida (sim, este é um método que utilizo ainda hoje – recomendo.) Nesta época, eu ainda tentei substituí-lo o mais rápido possível, de forma aleatória e desenfreada o que não agravou e nem ajudou o processo. Fica a dica.
Nunca mais o vi. Teoricamente.
A grande revelação vem agora e por esta, aposto que nem a Lee esperava. Eu superei o Eddie, alguns meses atrás quando decidi vê-lo tocar, no mesmo bar, talvez sentada na mesma mesa de sempre. Vesti-me de forma simples, tomei um calmante, um remédio para labirintite, uma Neosaldina e fui. Fazia bastante tempo que não nos víamos, mas eu já tinha retomado contato por e-mail. Ele sabia que eu estaria lá. Quando cheguei ele foi me receber e o fez da forma mais legal possível – um abraço, longo e apertado! E fez também a mesma piada do strip tease, desta vez apontando para mim, lá do palco. Ele riu, eu ri e naquele momento eu tive certeza absoluta que não o queria mais na minha cama, sequer na minha vida. Talvez na minha mesa, quando eles terminassem de tocar. Apenas para rir de novo da piada do mamute. Ou para que ele me chamasse mais uma vez de "Pequeno Polegar" e eu rebatesse chamando-o de "Chewbacca". Como nos velhos tempos.
Talvez agora até pudéssemos ser amigos, talvez não. Depois dele, eu encontrei muita gente interessante. Muito, mas muito mais interessante e não faço mais tanta questão da amizade de alguém hoje em dia, tão distante. Daquela época, a única coisa que ficou foi a referência. Ele foi meu primeiro padrão de "homem ideal".
Pois é.
Para ler ouvindo "For No One" (link aqui) dos Beatles. Coincidentemente, a letra tem tudo a ver com o texto que está mais longo do que o normal, mas é um daqueles textos que são como filhos, sabe? Eu li, reli, apaguei, desisti, voltei atrás, cortei duas páginas e agora ele está aí! Foi difícil.
Nota das Autoras: BRID está sem Twitter. Bloquearam o Twitter na empresa dela e até que ela consiga subornar o rapazinho de TI, ela ficará sem este canal de comunicação, tão importante para a divulgação dos posts (apesar de já termos lido que divulgar o próprio post no Twitter é contra as regras de etiqueta twitteira). Então, caso você tenha lido (e curtido) pode divulgar para a gente, né? A Lee vai tentar divulgar o máximo que ela puder, mas contamos com o apoio de vocês e com a certeza de que temos leitores fiéis.
"Eddie" é um nome fictício. Qualquer semelhança com fatos e personagens é mera coincidência. A não ser que você seja EU.
Lembrando também que podem continuar mandando histórias de doidos/doidas para nós. A partir da semana que vem, nós voltamos a contar casos se leitores. A não ser que a Lee tenha coragem de contar o caso do "Doido Patão". Sim, Lee – é o meu desafio para você!