segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Considerações Finais (ou não)

Considerações finais de LEE HOLLOWAY:

Somos muitos.
Apesar de os doidos terem começado a aparecer em nossas vidas já na adolescência, Bridget e eu descobrimos isso, que somos muitos, na faculdade, quando fizemos um trabalho de Literatura Brasileira para um professor que admirávamos muito. Eu me lembro bem da frase do Rimbaud que usei para abrir o ensaio que escrevi sobre um romance de José de Alencar: "Je est un autre", que, traduzida literalmente, seria "eu sou um outro".
Foi pensando nisso que escrevi minhas histórias neste blog e cheguei a incríveis 40 casos clínicos. Eu sou um outro. Sou uma outra pessoa, sou muitas pessoas ao mesmo tempo ou uma pessoa apenas dependendo da situação. Posso ser romântica, ciumenta, tímida, um pouco possessiva, doce, apaixonada, impulsiva, contida... A combinação dessas características depende de alguns fatores: o doido da vez e a situação que estou vivendo naquele momento.
Como a Bridget disse no post anterior, 40 homens dignos de post não condizem com a realidade da minha vida afetiva. Não sou tão rodada assim! Nem a Brid! Mas se pensarmos que cada doido pode ter sido ao mesmo tempo emotivo e inseguro, liberal e fetichista, arrogante e comedor, ou até emotivo, fetichista e comedor (who knows?), chegaremos ao número exato de homens significativos que passaram pelas nossas vidas de para-raios de doidos.
Em algum momento da vida deste blog eu achei que nós deveríamos esclarecer isso a vocês, mas achei também que estava mais ou menos implícito nas histórias. Talvez tenha faltado oportunidade para falar sobre o que é este blog para nós, mas agora, que queremos mudar um pouco a carinha dele, é o momento certo para isso.
Sinceramente, não sei o que aprendi escrevendo aqui. Sei que estou mais tranquila com relação à minha vida sentimental e isso é muito bom. Os conselhos que me foram dados, as broncas, os ombros para chorar, os comentários todos, enfim, tudo que aconteceu aqui me ajudou a digerir as histórias. E esse era um dos meus objetivos quando comecei a escrever os casos clínicos.
Somos muitos e teremos várias faces sempre. E, pensando assim, continuaremos a escrever nossas histórias, conforme elas forem acontecendo.


Considerações Finais de BRIDGET JONES:

Certa vez, eu tinha aproximadamente uns 17 anos, achava que meu inglês era o melhor inglês que se podia esperar de uma adolescente desta idade. Determinada a explorar os ambientes misteriosos da literatura contemporânea, peguei para ler um "crássico" moderno de Nick Hornby chamado "High Fidelity". Versão original. Inglês britânico, não vitoriano, coloquial e com o maior número de "fucking whatever" que eu já tinha visto na vida. No segundo capítulo, desisti da empreitada. Eu não "sei" ler em inglês – pensei! Lembro-me de ter comentado com a Lee na época (a Lee tem o inglês mais nobre, perfeito e aristocrático da face da terra), que apenas disse: "Tenta de novo! O cara vale a pena."
Mas eu nunca acho que os caras valem a pena. Desisti.
Tal inépcia me motivou a ser obstinada. Eu li desde Jane Austen até Hemingway, passando por Truman Capote, Sophie Kinsella, roteiro do Seinfeld, peças de Shakespeare, folder de companhia aérea, enfim – tudo o que eu pudesse ler em inglês, mas eu tinha medo do "High Fidelity". Cheguei ao ponto de escondê-lo, para não precisar enfrentá-lo.
Mas sábado eu olhei para ele. Lá estava, na estante, a lombada me fitando, exatamente onde eu o havia enclausurado anos atrás. O livro desafiou-me e, pela primeira vez em anos, eu aceitei o desafio, cheia de confiança propocionada por um outro livro do mesmo autor chamado "A Long Way Down", que tem bem menos "fucking things", mas que me deu coragem suficiente para "vencer" o tão temido "High Fidelity". Eu passei o sábado e parte do domingo não numa luta, como pensei, mas sim num embate digno e deliciosamente equilibrado com o livro. Ao terminar, não me senti vitoriosa como num duelo. Senti-me exaurida e ao mesmo tempo renovada, como se acabasse de fazer o melhor sexo do mundo (não estou dizendo que leitura é melhor do que sexo. Também não estou dizendo o contrário), e em vez de dizer "Touchè", como imaginei que faria, eu respirei fundo, fechei os olhos, mordi os lábios e aproveitei o meu momento orgasmático.

Considerações gerais de BRID and LEE:

Qual a razão de tudo isso? "Ei, meninas, este é o ‘Sou para-raio de doido’ e não um blog em que vocês colocam suas memórias e crônicas." Sabemos disso! Mas hoje não vamos falar de nenhum doido. Vamos falar da nossa loucura. Do meu medo de tentar. Tentar e falhar, como falhei em "High Fidelity" da primeira vez. E do medo que eu tenho de falhar e nunca mais ter coragem. Vamos falar do medo que a Lee tem de não deixarem que ela tente. Às vezes é muito mais cruel privar alguém da tentativa de ser feliz, com medo de que ela sofra (ou de sofrer), do que de tentar só para ver no que dá, aleatoriamente. Lee e eu somos o côncavo e o convexo. Eu me privo.

Este é provavelmene o nosso último post falando de nós, e achamos que compartilhar algumas coisas seria de bom tom, já que vocês só conheceram nosso lado saudável. Afinal "somos para-raios de doido" e não o contrário. Mas, como diria Flaubert, "Madame Bovary sou eu!" e aprendemos (com este blog, acreditem) a tentar de novo. A aceitar desafios e sermos menos covardes (eu principalmente – a Lee é corajosa). E agradecemos a todos vocês por isso. Todas as vezes que abrimos nossa caixa de e-mails e havia um conselho, uma história ou um pedido de análise. Aprendemos muito com todos vocês. Aprendemos e descobrimos, entre outras coisas:

1. Que algumas vezes, as decisões equivocadas são as que nos levam ao caminho certo. (provérbio Bridgetiano)
2. Chorar por alguém que a gente curte não é fraqueza, é coragem. (clichê)
3. Nick Hornby em inglês é mais fácil do que Jane Austen. (Touchè!)
4. Por mais interessante que eu seja, um dia você se cansa, a menos que você me ame. (regra geral l)
5. Por mais que você me ame, um dia você se cansa. (regra geral 1.1)
6. Por mais que você esteja cansado de mim, sempre teremos Paris. (regra geral 1.2)

Tem mais algumas máximas, mas este post todo é apenas para ilustrar o que nós precisamos neste momento. Foram-se nossas histórias. Não foram todas, mas ao menos aquelas que superamos de forma absoluta e completa. Neste momento, então, peço a ajuda de todos aqueles que nos leem, seja você homem, mulher ou ser vivente! É a sua história que nós queremos analisar. Não precisa ter vergonha, pois como você bem sabe, vergonha nós não temos. Mande sua história, escreva do jeito que você achar melhor, exorcize seus fantasmas! Prove para o mundo que você também é "pára-raio de doido". Se não quiser ser identificado, é só dizer, mantemos sua identidade, mas se quiser divulgação do seu Blog, do seu Twitter (mediante publicação da sua história, lógico) também tá valendo. O importante é você mandar seu caso, para que este blog sobreviva! E ele vai sobreviver! Por Santa Madonna Ciconne, por São John Lennon! Amém.

O espaço não está aberto apenas para histórias a serem analisadas, não! Podem continuar mandando suas dúvidas emocionais, seus medos quanto aos relacionamentos, pois nós continuaremos respondendo como sempre fizemos (nossas desculpas, pois nem sempre dá tempo de responder tudo), mas agora, algumas coisas selecionaremos e farão parte das histórias de doidos! Não temos autoridade nenhuma para aconselhar, que fique claro! Mas a verdade é que nosso diagnóstico é sempre uma alternativa e o delicioso de tudo isso é ver as coisas se movimentando nos comentários, numa dinâmica genial que só vocês conseguem nos proporcionar.

Tanto eu quanto a Lee queremos saber a opinião de vocês quanto a essas mudanças e queremos sugestões também! A frequëncia dos posts, o esquema de resposta dos nossos comentários, e tudo o mais. Esta reformulação na estrutura do blog é nossa! É da Lee, é minha e é de vocês que nos leem. E que nos dão motivação para continuar escrevendo sobre o tema. Podem deixar comentários, podem mandar e-mail, mas interajam para que nós possamos cada dia mais servi-los (ui!) melhor!

Nota das autoras: À medida que nossas vidas forem se movendo (prometo que quando a Lee decidir se casar de vez eu conto a vocês) e nós formos achando graça nas historinhas que ainda nos restam, nós postamos aqui. Prometemos mesmo! Sabemos que o post está gigante, mas não tinha como ser diferente. E parece que ficou faltando tanta coisa...

Para ler ouvindo My Way com o Frank Sinatra. Não precisa nem comentar, né?
Letra (AQUI) e Vídeo (AQUI)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Caso do Doido Ofendido


Sejamos sinceros? É sabido que Lee e eu não temos ainda 30 anos, mas já passamos dos vinte já faz um certo tempo. Se formos fazer continhas (não façam) daqui a pouco, o número de casos, dividido pelo tempo de vida sexual ativa que temos, daria um total de 3 homens por dia, o que não é um número realista. Principalmente se formos admitir que nossas relações-prazerosas-sem fins-reprodutivos tiveram início após os vinte anos (cof! cof!), com muito orgulho! Tendo isso por base, nossos casos estão acabando. Lee está namorando "firme" (adoro esta expressão: namorar "firme") e eu, depois deste meu último caso, pretendo comer muito tofu e ler muito Osho.
Temos ainda umas quatro ou cinco histórias cada uma, que ficaram para o final, para sabermos se conseguiríamos contá-las com bom-humor. Não conseguimos. Mas de qualquer forma, Lee lançou o desafio e a partir da semana que vem, vamos tentar fazer isso. Começo aqui com uma história que ainda não me causa vontade de rir (ainda), mas é a mais recente e menos dramática de todas. Espero que não se importem com o tamanho do post. Para quem for até o final, boa leitura!

CASO CLINICO: Homem, filho de pai holandes e mãe brasileira, 32 anos, loiro (muito, muito loiro), olhos verdes, 1,80m e dentes em ordem (quando digo "em ordem" eu me refiro a ter todos os dentes da frente). Dentista. Antes que meio mundo venha dizer que eu jurei nunca mais cheirar Eugenol, já vou avisando que desta vez eu fui resistente, mas o destino adora me pregar estas pecinhas.

Tudo começou quando eu quis fazer clareamento nos dentes e o meu primo me indicou um amigo que "fazia um ótimo trabalho", já que por motivos que não vem ao caso, meu dentista peruano se recusou a fazer (mais um) clareamento nos meus dentinhos. Marquei a consulta e fui. Sentei lá, fiz todas honras, e tudo transcorreu normalmente, mas acho importante citar 3 coisas:

1. Ele foi de fato mais simpático do que o normal, mas eu era prima do amigo dele, oras!

2. Ele usava All Star branco. Sei lá a razão de eu ter reparado nisso! Mas eu simpatizei.

3. Ele se parecia com o Paul Bettany, o Silas do "Código da Vinci", então não era necessariamente bonito. Era diferente. E tinha cilios clarinhos. Juro, era impossivel parar de reparar naquilo.

Antes do famigerado clareamento, ainda tive que ir até lá fazer alguns procedimentos de praxe. Falávamos o necessário (ele falava mais do que eu, por motivos óbvios), mas tudo completamente normal. Fiz o tal do clareamento numa sexta-feira e no sábado, enquanto me preparava para sair (isso dura o dia todo), recebi 4 ligações do doutor, interessado em saber da minha recuperação (???) e sobre a sensibilidade dos meus dentes. Na quinta vez, resolvi ser engraçadinha, só pra variar:

SILAS: Está sentindo alguma coisa incomum? A sensibilidade está suportável?

BRID: Se eu disser que "não", você vai me receitar Vicodin e repouso?

SILAS: Vou dizer para você vir até aqui.

BRID: Num sábado a noite?

SILAS: Vai fazer alguma coisa hoje?

(Eu ia. Ia para uma danceteria "descolada", ser assediada por um michê enrustido que havia por lá, como vocês podem ver neste post AQUI)

Desconversei e tudo ficou por isso mesmo. Mas o meu primo, como bom alcoviteiro que é, elaborou uma "coincidência" qualquer num deste sábados em que a noite é uma criança e TODOS estão no mesmo bar. Ficamos perto na mesa, conversamos e combinamos de sair no sábado seguinte, como quem não quer nada. Desde então, Dr. Bettany era visto em minha companhia. Ele não é do tipo "divertido", mas é do tipo "acolhedor" o que foi providencial. Devo admitir também que ele não me causava o efeito "borboletas no estômago" e que por este motivo, eu também estava "tentando" sentir isso com outras pessoas, ou seja: eu não saía só com ele. Não que eu estivesse por aí dando (ui!) o ar da minha graça a todo ser vivente, mas Dr. Bettany não era prioridade (nem os outros). E de alguma forma velada, ele sabia disso.

Deu-se que ele ia para a Nederlândia, e eu achei ótimo! Passaria lá 23 dias e talicoisa coisitali. Vejam bem: Eu não era namorada dele, então não havia sentido eu fazer nenhuma cena. E ainda que fosse, eu descobriria um jeito mais digno de demonstrar meu sentimento de (acrescente aqui qualquer tipo de sentimento nobre). Já percebi um certo desconforto da parte dele (como se EU fosse para Londres encontrar algum namoradinho virtual), mas ignorei. Sou destas. No dia seguinte, na sala de justiça, conhecida como "Starbucks":

SILAS: Blá, blá, blá descafeinado. Blá blá, blá quer namorar comigo?

(bem ao estilo Silvio Santos de perguntar no "Namoro na TV". Sutilidade e suavidade, teu nome é Silas!)

BRID: Hein? (e fiz aquela cara estúpida com os olhos arregalados. Quem me conhece sabe que eu já tenho olhos grandes e redondos, o que torna essa cara ainda mais polêmica. Ela assusta os desavisados.)

Pausa para dúvida:
Alguém hoje em dia ainda pede em namoro? Porque eu, na minha experiência de vida (que nem é assim tão vasta) deixei de ser pedida em namoro quando tinha 20 anos. Desde então, a coisa era ofiacializada com uma pergunta simples (que quase sempre partia de mim): "Você tá saindo com mais alguém?". Dependendo da resposta, era namoro.

Voltando:

Eu sou uma pessoa confusa por natureza. Fico 3 horas para escolher coisas simples, como o sabor de uma bala num pacote sortido. Não me peçam para ser prática! Eu terminei umproblemático namoro (em que provavelmente, o problema era eu) recentemente e não queria nada sério. Apesar de não saber ser prática, eu sei ser sensata. Disse não. Mas não foi um "não" taxativo. Eu argumentei com "ainda é cedo" (/Legião Urbana), "nós somos jovens" (/Exército do Surf), "melhor esperarmos você voltar de viagem" e coisas do tipo.

Mas qual o quê? Parece que eu toquei num ponto sensível (ui!) do rapaz. Expus o nervo e preparei o canal, sem anestesia,do indívíduo! Mexi com seus países baixos (ui!). Ele ficou emputecido. A coisa mais bonita que eu ouvi foi um impropério em holandês (acho) que não encontrei nos dicionários de linguagem culta! Ele "terminou" comigo. Antes mesmo de termos começado.

DIAGNOSTICO: Sinceramente? Eu tenho tantas teorias que não saberia formulá-las aqui. Minha irmã, que é quase o Freud, disse que provavelmente ele quis "garantir" o dele (???) antes da viagem. Mas vamos e convenhamos? Quem vai para Amsterdã é ele. E eu fiquei feliz por ele, oras! Wondercakes de canabis? Vitrine do Sexo? Não numa boca saudável (/Colgate 12). Eu confiaria – ele confiaria. Simples. Mas parece que além da cena de ciúme, ele também queria um SIM imediato e incondicional. Eu mereço?

TRATAMENTO: Sugiro Wondercakes de Canabis e Vitrine do sexo em Amsterdã.

Não, amigos, eu não soube como agir. Eu não tenho medo de relações e compromissos (tenho sim), mas tenho medo de magoar. Sempre tive. Prefiro não começar coisas, do que ter de terminá-las. É meu jeito. Não é uma qualidade, eu sei. Confesso que parte das coisas que ele disse no calor do momento (ui!) eu já tinha ouvido de "Doido Coldplay" (Veja AQUI), mas eram situações diferentes. O que me deixou mais intrigada, não foi exatamente ter sido descartada por alguém de cultura divergente da minha, que acha ofensa ter um pedido recusado, mas sim a repetição das palavras "você nunca vai ser feliz pois não merece que ninguém goste de você". É dramático? Com certeza, mas faz pensar. E magoa um pouco.

Ou talvez eu deva tentar me relacionar com mocinhos menos adeptos ao drama. De dramática, nesta história toda, já basta eu!

Para ler ouvindo "The Power of Goodbye" da Madonna, que nem tem muito a ver com o post, mas tem tudo a ver com o meu momento. Letra AQUI e clipe AQUI.



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O caso do doido com autoestima nula

Caso clínico:
Homem, 25 anos, bonitinho, 1m75, meio gordinho, músico.

*BACKWARD*

Eu o conhecia da época do colégio. Estudávamos na mesma sala. Era aquele típico nerdzinho que não pegava ninguém. Enquanto todos os amigos davam os primeiros beijos e se iniciavam nas relações prazerosas-sem-fins-reprodutivos, ele curtia paixões impossíveis e devorava livros em casa. Eu era preocupada demais em chamar a atenção de um cabeludo do terceiro ano para prestar mais atenção no nerdzinho, mas eu o achava bem legal, apesar de não ter muito tato com as meninas. Acho que a baixa autoestima dele e o medo de rejeição de que ele sofria vinham já dessa época.

*FORWARD*

Eu o reencontrei anos depois da nossa formatura. Fui convidada por outro amigo a ir a um show e, coincidentemente, o doido do colégio fazia parte da banda de abertura. Baterista, portanto, sexy. Falei com ele depois do show, trocamos telefones e foi aí que tudo começou.

Como sempre, no começo tudo era leendo e divertido, mas, aos poucos, fui percebendo que ele sofria de distimia (mau humor crônico), sempre manifestada por algum comentário rabugento sobre qualquer assunto que eu estivesse falando.

Ao mesmo tempo em que ele não suportava críticas, que poderiam fazer com que sua autoestima sumisse de vez, ele adorava me alfinetar. Ele não me criticava abertamente nem me elogiava. Ele fazia algo pior. Sempre que eu mostrava um texto meu, por exemplo, ele dizia algo do tipo “é, esse ficou um pouco melhor do que seu texto anterior”, “é... poderia ter ficado mais interessante”, “ficou faltando alguma coisa”. Ou seja, nunca estava bom por mais que eu reescrevesse porque, claro, só ficaria bom se ELE tivesse escrito.

Uma vez ele me pediu que eu mandasse uma foto minha para que ele guardasse de recordação. Claro que me preocupei em mandar uma foto em que eu estivesse bem gatchenha. Arrumei o cabelo, fiz uma maquiagem leve, achei um lugar legal, ajeitei a luz e bati a foto. Único comentário dele? “Carão”. Mas hein?

Ele também se achava o fodão na cama. Atentem para o fato de que ELE se achava, não que EU o achava. No entanto, mesmo se achando o comedor-mor, eu só me lembro de ele ter me contado sobre os fracassos sexuais. Curioso, não? Mas é óbvio que o discurso “pego-todas-que-cruzarem-meu-caminho” era só mais um método de autoafirmação. Só tenho dúvidas se o discurso dele era pra ME convencer ou pra SE convencer.

Até hoje eu acho que ele se sentia meio fracassado perto de mim. Sim, eu tinha um emprego melhor do que o dele e ganhava mais do que ele e na cabeça dele uma mulher jamais poderia ser superior, isso era algo inconcebível. Portanto, o que ele fazia? Teoria de Dra. Bridget Jones: sabendo que era “inferior”, ele tentava me convencer o tempo todo de que eu era menos do que ele e por isso nunca me elogiava nem me parabenizava por algo bom que me acontecia.

Por fim, ele tinha uma mania horrível: me deixar falando sozinha. Sempre que a gente discutia e ele não tinha mais argumentos, ele simplesmente virava as costas e ia embora. Quer me deixar no auge do ódio? Siga à risca o comportamento desse meu doido. Porque, né? Eu já falo pouco. Daí quando resolvo abrir a boca o cara me ignora? Fanculo!

Ele vivia dizendo que não tinha a intenção de me magoar com essas atitudes. Só que continuava fazendo insistentemente tudo o que eu pedia para não fazer. Incoerente? Cruel? Doente? Chato? Ficadúvida.

Diagnóstico inicial:
Mau Humor Crônico (MHC), Déficit de Autoestima (DA), Insatisfação Aguda (IA), Síndrome de Autofirmação (SA), Medo de Rejeição (MR), Incapacidade de Gostar de Alguém (IGA).

Tratamento aplicado:
Um dia, depois de quase um ano, eu me enchi de verdade quando ele me deixou falando sozinha de novo. Ele saiu do bar e lá fiquei remoendo todo o ódio antes de pagar a conta. Sou insistente demais, mas, quando resolvo apagar uma pessoa da minha vida, eu faço e acontece (/irmãselma).

Ele não sabia gostar de ninguém, pois acho que desde que era um nerdzinho de colégio ele não sabia se relacionar muito bem. Ele não gostava nem de si mesmo, senão não precisaria tentar mostrar que era “O” cara a todo o momento.

Pensando nisso tudo e no fato de que ele não acrescentava nada pra mim, sumi da vida dele. Ele ainda tentou falar comigo por telefone, mas mandei dizer que eu tinha ido receber o Nobel da Literatura (pedantismo mode ON) e não voltaria nunca mais.

Soube esses dias que ele está namorando. Coitada...

Para ler ouvindo Madonna com Miles Away. “I guess we’re at our best when we’re miles away. So far away”.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Caso do Doido Pedante

CASO CLINICO: Homem, caucasiano, olhos e cabelos castanhos claros. Na época, estudante de Engenharia civil na conceituada Politécnica. Eu o conheci numa destas festcheenhas entre faculdades e começamos a namorar. Namorar mesmo, sem espaço para prévias, já que tínhamos muitas afinidades. Uma delas era o bom-humor. Ele me divertia. Acreditem, me divertir não é uma tarefa fácil.

A forma como nos dávamos bem era de fato algo inédito. Existia, obviamente uma barreira que nos separava. Ele era um garoto de exatas. Eu era uma menina das letras. Ele, extremamente metódico, eu, completamente caótica. O fato dele ser genial com cálculos não fazia dele uma pessoa distante, pelo contrário, ele era destes que adorava coisas novas (ui!). Eu admito aqui, nunca fui boa com números e nunca me meti (ui!) a ser. Mas nesta época, o roteiro “Eduardo e Mônica” (escola/cinema/clube/televisão) era seguido a risca por mim e por meuzamigo de faculdade/copo.

Eu comia, bebia e respirava cinema e literatura e percebi que ele também começou a curtir essa parte dos filmes. Assistia a clássicos, acompanhava os lançamentos comigo, até que comecei a sentir um certo ciúme por meu hobby pessoal e uma certa raiva pelo pedantismo da criatura ao falar tão eloqüentemente de Truffaut. “Eu criei um monstro!”, já diria Doutor Frankenstein, em algum filme/livro. Terror não é o meu forte.

Mas vamos ao que interessa: Gostar do que eu gosto e tentar acompanhar meus passatempos? Ok! Saber mais do que eu, devido a uma capacidade de armazenamento de informações mais aguçado que o meu? Ok! Ser pedante na frente dos meus amigos e ficar me corrigindo de forma mal educada? Fail! Não tem característica que eu ache mais nojenta do que o pedantismo. Seja em homem, mulher, criança ou qualquer outro ser vivo. Eu até acho que alguns animais e objetos são pedantes (não vou me alongar nesta teoria, pois estou lúcida, beijos). O problema é que eu simplesmente já andava enojada demais do rapazinho e sua síndrome de Sadóvski., mas não sou lá muito boa com términos, vocês sabem. Deu-se que:

FADE IN: (mesa do bar “O Rei das Batidas”. Nove pessoas, entre elas Tito, também conhecido como “Marcelo Janot disfarçado de Caco, o sapo”, Brid e “Doido Pedante”. Falam sobre amenidades cinematográficas sem nenhuma importância para a academia, quiçá para vida. Bridget versa sobre o papel do filme “Labirinto” em sua personalidade, enquanto Tito “Janot” como sempre falava de como os Muppets tinham formulado sua identidade sexual. Não havia então, brecha nenhuma para citar “Babenco”, o Hector. Ne-nhu-ma.)

DOIDO PEDANTE: E tem também aquele filme do Babenco... não lembro o nome!

JANOT: Babenco? (faz cara de incrédulo)

DOIDO PEDANTE: É.

(neste momento a mesa toda se entreolha. Tito “Janot” pensa, morde o lábio, como se tentasse lembrar de algo do Babenco difícil de ser lembrado, como “Brincando nos Campos do Senhor” ou coisa que o valha. Por fim, nada é citado. Câmera corta para o rosto de Doido Pedante.)

DOIDO PEDANTE: “Quem matou Quixote?”! Isso!

(Todos olham para Bridget, que neste momento tem uma epifania. A câmera focaliza apenas os olhos, que se fecham.) FADE OUT

DIAGNÓSTICO: Pedantismus Exacerbaduum (PE), Síndrome de Sadóvski (SS) e Necessidade de Aceitação em Grupos. Dispensa qualquer tipo de explicações mais detalhadas, não?

TRATAMENTO EFETUADO: Devo dizer que tive uma certa sensação orgasmática ao anunciar mais tarde, a sós, que quem havia matado Quixote, na verdade tinha sido Cervantes, o Miguel. E havia sido uma morte limpa, digna e não “pixotesca”. No mesmo dia, ele corrigiu-me numa complicada continha de adição que eu fiz de cabeça, comprando picolés no Ibirapuera. Foi a gota d’água. Eu não ia bancar o Sancho Panza eternamente e continuar aceitando as loucuras pedantes daquele doido. Fui madura e bastante adulta. Tomei coragem e arranjei um bom motivo para ele terminar comigo (não sou boa com términos, vocês sabem).

Eu não sou a pessoa mais inteligente do mundo. Mas o que sei, sei de verdade. Não exijo memória enciclopédica de ninguém, mesmo porque eu sou a única pessoa do mundo que confunde “Platoon” com “Papillon”, “Egon” com “Trevor” (Caça-Fantasmas) e daí por diante. Mas eu me divirto com minha inépcia e tenho tendêcias a achar a inépcia do “doido da vez” igualmente divertida. E no dia em que eu percebo que a inépcia alheia ao invés de me divertir, me irrita, é sinal de que algo não vai bem. E quando acaba a diversão, acaba tudo. Namoro tem de ser divertido! É gostar de resolver pendências antes delas virarem problemas. Problemas, eu já tenho tantos...

Hoje não tem “Para ler ouvindo”. Vou deixar o “Fade In – Fade Out” com vocês. O meu é o primeiro beijo de um casal qualquer, num fim de tarde. Ar livre e chuva torrencial. A minha trilha sonora? Vamos de “Every time We say goodbye” de Ella Fitzgerald. Não, não estou romântica, como diria a Lee. Estou inspirada.

N.A.: Lembrando que “Quem matou Pixote?” não é um filme do Babenco. Babenco fez um outro filme, alguns anos antes chamado “Pixote – a Lei do mais fraco”, mas isso, nem eu lembrei no dia. Foi o Sadóvski, digo...o Tito, que me lembrou, dias atrás, antes de eu escrever este post, beijos!





segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O caso do doido covarde

Caso clínico:
Homem, 32 anos, olhos castanhos, caucasiano, 1m75, peso proporcional. Formado em Marketing, tinha um empreguinho fora da área “até achar algo melhor” (palavras dele), mas nunca se esforçava pra encontrar realmente um t-r-a-b-a-l-h-o. Era meio medíocre, portanto. Só que quando nós gostamos de alguém nós relevamos tudo, não é? Eu relevei muita coisa, inclusive a má vontade dele pra achar algo melhor, em troca dos poucos momentos bons que ele me dava. Eu também era meio medíocre, portanto.

Nunca conheci homem mais covarde do que ele. Pra tudo: assumir relacionamentos, dizer o que pensava, pedir alguma coisa, dar respostas, questionar, admitir erros, pedir desculpas, dizer que eu estava errada, enfrentar problemas... A lista é longa.

Eu nunca consegui ter uma conversa de “adultos” com ele. Nem sou muito fã de DRs, mas acho que às vezes elas são importantes para esclarecer coisas que ficaram no ar ou que não foram superadas. E por essa minha necessidade de esclarecer as coisas eu chegava ao cúmulo de mandar e-mails quilométricos pra ele. E ele te respondia? Nem pra mim. E SE respondia era só dias depois (tempo suficiente pra me deixar no TOP 5 da Irritação).

Ele é desses que gostam de namorar só com a parte boa da menina. Ele adora quando ela está bem, feliz e satisfeita com o trabalho. Ele adora a família dela quando está bem longe de todos os parentes. Ele adora sair com ela quando tem dinheiro. Adora! Fica feliz em todos os momentos bons. Mas foge rapidinho e faz cara feia (!?!) quando ela está menstruada, quando ela brigou com o pai e precisa do ombro do namorado pra chorar um pouco. Ele quer colocar as mãos no ouvido quando ela faz alguma pergunta que o deixa contra a parede. Ele a odeia quando ela tem mais coragem do que ele.

Diagnóstico inicial:
Falta de Colhões (FC), também conhecida por Bolas Faltantis (BF).

Tratamento aplicado:
Não tem paciência, não tem boa vontade, não tem amor, não tem paixão, não tem obsessão, não tem ideia fixa, não tem NADA que resista a um tipo como esse. Covardia é a “doença” mais nojenta que um doido pode ter. E é broxante (Com X? Com CH? Dúvida!). Deve existir mulher que gosta de ficar cuidando do cara o tempo todo e de fazer a mulher-mãe-protetora. Mas pra mim não serve. Gosto de ser cuidada. Gosto de homens com iniciativa. Gosto de homens estimulantes. Gosto de homem “de verdade”, como disse nosso leitor Rafael (hehehe). :D

Minha história com esse doido durou bem mais do que deveria. Eu poderia ter me machucado muito menos e chorado menos. Mas hoje quando vejo meu namorado me dando conselhos de “gente grande”, eu abro um sorriso enorme de satisfação.

Para ler ouvindo We walk, com The Ting Tings, que é uma música fofa (awn!).