Bloqueio.
Bloqueio criativo? Bloqueio intelectual? Bloqueio psicológio? Não sei. Sei que eu tenho tido sérias dificuldades em agrupar os acontecimentos, transformá-los em idéias concatenadas e depois em texto minimamente coeso. Mas eu não poderia deixar de tentar. São tantas coisas para organizar que eu acabo deixando tudo para depois. E quanto mais eu espero, mais elas vão se misturando e embaralham-se ainda mais na minha cabecinha loira. Ops, eu disse loira? Na minha cabecinha morena de Mia Wallace. Muito prazer, eu sou Bridget Jones e agora tenho cabelos pretos. Lisos, na altura dos ombros e com uma espessa franja. Não há interesse relevante nesta informação, mas eu avisei que estava difícil concatenar as idéias.
E, claro, meu novo corte de cabelo é mais relevante para mim do que meu últimos doidos.
Estando eu solteira já há algum tempo, não me furto em dizer que tenho tido minhas incursões pelo mundo das mulheres avulsas, como vocês podem ver (aqui). Desisti de freqüentar as baladinhas e resolvi aceitar convites de gente que eu já conheço, ou apresentados por gente que eu já conheço. Deste jeitinho mesmo, como uma indicação de emprego. Costumo dizer que estou aceitando até convite para quermesses de vila. Ainda vou contar aqui como foram (ou tem sido) meus encontros, já que estou numa fase de tentativas. Ou, melhor dizendo, de tentativas-erro. Mais erro do que acertos, que fique claro.
Estou tentando ocupar o lugar de "Doido Imaginário" que é aquele doido que nós mulheres começamos a construir aos 14 anos e paramos no dia em que morremos. O meu "Doido Imaginário" gosta de Seinfeld, ri (e entende) TODAS as minhas piadas, tem todos os dentes e consegue utilizá-los com eficiência nas relações-prazerosas-sem-fins-reprodutivos. Vocês podem perceber que meu nível de exigência é inversamente proporcional ao numero de dias em que eu não pratico relações-sexuais-sem-fins-reprodutivos. Ao invés disso, tenho comido tofu e lido OSHO.
Numa destas tentativas, saí com "Doido Moralista". Vamos ao caso:
Caso Clínico: Homem, 30 anos, engenheiro, cabelos e olhos castanhos escuros, nariz levemente adunco (acreditem, eu adoro!), 1.75m, mãos lindas e cheiro amadeirado. Era a terceira vez que saíamos e as outras duas tinham sido agradáveis. Fora o fato dele dirigir como menina (câmbio automático. Eu sou terminantemente contra câmbio automático), eu achei que tudo estava saindo como o esperado. Todo aquele "blábláblá" de praxe, comida levinha, café no Starbucks, mais "blábláblá", convite para conhecer o apartamento dele (recusado), beijo de despedida (caliente, pero no mucho), seguido por novo convite e finalmente o terceiro encontro.
(É importante dizer aqui que eu não estava animada com a possibilidade de um relacionamento. Estava apenas tentando, para não dizerem que eu perdi a fé (o que definitivamente não aconteceu, eu só estou passando por uma "apatia momentânea", segundo Amigo Gay).)
Deu-se que ao fim do terceiro encontro, estávamos indo para o desconhecido. Toda mulher sabe que quando o homem dirige para o desconhecido, ou ele está indo para a o apartamento dele (no caso dele morar sozinho, ou em um ou outro caso, no caso dos pais dele terem sono pesado) ou para a Bat-Caverna (motel, hotel ou afins). Mas a burocracia pede que antes aconteça um diálogo estúpido, só para ter certeza de que a moça vai topar. Afinal, temos 15 anos.
Doido Moralista: Vamos para casa? Podemos ver (coloque aqui o nome de um filme qualquer) no DVD. Ou então ouvir um pouco de (coloque aqui o nome de um banda, cantor, ou estilo de música qualquer). Fora que eu comprei uns (coloquei aqui o nome de um petisco qualquer) para gente comer.
BRID: Pode ser.
Neste momento, a batalha estava ganha. Não a guerra, mas a batalha sim! Seria inútil eu resistir aos feromônios que ele exalava e ao mesmo tempo, eu meio que merecia uma noite relaxante com Seinfeld e dentes (exatamente nessa ordem, afinal, vocês sabem que sou dessas, mas há limites para isso, especialmente quando envolve Seinfeld). Mas é óbvio que como todo homem que não é o "Doido Imaginário" ele tinha que provar que as vezes ficar em casa comendo um tofu e assistindo a Seinfeld sozinha é a melhor saída para o stress desencadeado pela falta de relações-prazerosas-sem-fins-reprodutivos, com esta frase:
Doido Moralista: Eu sempre te achei linda, inteligente (sim, já nos conhecemos faz tempo), sempre tive vontade de sair com você (era o momento de parar, não?). E sinceramente, acho que você foi perfeita nessas vezes que saímos, não se insinuando (??), sendo comedida (???) e acho que agora é o momento certo (?!?) para tudo (TUDO?) ser mais legal.
Diagnóstico: Falsus Moralisticus (ou galã de quinta da Era Vargas). Nem sei o que comentar sobre tal patologia, pois eu sou Junguiana, e como tal, de vez em quando, curto um "sadismozinho" só de sacanagem. Não preciso dizer que minha vontade era esbofeteá-lo gritando: "You can act like a man!" imitando a voz do Marlon Brando, mas como eu disse, sadismo, só de sacanagem. Literalmente. E eu não tinha uma chibata e nem usava roupas apropriadas, como mandaria a ocasião.
Tratamento efetuado: Ao ouvir a frase disparada pelo paciente, eu logo fiz a tradução exata em minha cabeça (que ainda era loira) e ficou assim:
- Brid, ainda bem que você não deu para mim no primeiro encontro, ou no segundo. Caso contrário, não teria terceiro (sim, as paráfrases que eu faço são grosseiras e usam palavras da fina-flor do meretrício paulista, beijos). Mas agora já chega de enrolar, né?
Respondi então prontamente:
- Eu não fui comedida, eu fui espontânea. Se nada aconteceu entre nós dois até agora, foi porque eu não me senti suficientemente atraída para que acontecesse e sinceramente estou aliviada. Pensei que o problema estava em mim. Você é um cara legal, mas sinceramente eu não consigo pensar em estar com alguém que acha louvável que eu controle minha libido só para provar que eu tenho algum valor. Por favor, vamos para a casa. Para a minha, bem entendido.
Sim, pessoas. Eu usei quase estas mesmas palavras, pois eu já ensaiei este discurso. Aliás, eu já dei este conselho mil vezes, mas nunca imaginei que eu não saberia reconhecer um "Doido Moralista" logo de cara. Na verdade, nunca achei que fosse cruzar o caminho de um deles, pois a minha pré-seleção sempre filtrou estes tipos. Percebi, sinceramente que não sirvo para isso. Aliás, o meu problema não é com o moralismo (ou a falta dele) em si, mas sim com a hipocrisia da coisa. Surge então, todo o papo de elogiar minha conduta antes de nossa suposta prima nocte. Como se eu tivesse sido uma boa menina e merecesse alguma recompensa. Eu não mereço "recompensa" nenhuma. E é bom que ele saiba que eu sou uma garota má, no bom sentido, e que isto não é necessariamente ruim (nem bom). E só não vou falar mais sobre esse assunto porque não sou daquelas que queima sutiã e não tenho vocação para ser sindicalista, ou influenciar pessoas.
Não é segredo, eu jogo! Não é errado jogar, as relações são baseadas nisso. Mas a cada ponto ganho, no meu jogo – segundo as regras que eu gosto de seguir – ganha-se o direito de ver um pouco da tal espontaneidade que (dizem por aí) eu tenho.
Agora, se isso é bom ou ruim, cabe ao jogador descobrir no decorrer da partida e desistir (ou não) de jogar. A partir do momento em que eu não posso ser espontânea, não é mais o jogo adequado. Torna-se "dissimulação" e eu não sou destas, beijos!
Lembretes e notas mentais:
1. Nunca pedir para um amigo músico-sensível "ir lá na frente e tocar uma música que tenha a minha cara". Sempre há o risco dele tocar "Hard Woman" dos Rolling Stones. E isso pode não ser muito legal, considerando a letra da música (Aqui).
2. Tatuagens, sempre em número ímpar.
3. Acabei de ler "Nana", um mangá/shoujo. Nunca fiquei tão "tocada" com um mangá. Exceto por Death Note (sim, eu sou destas - que lê mangá).
Para ler ouvindo B.B. King com "Just a little bit of love", num cantinho obscuro do Bourbon Street, num dia daqueles. Mas daqueles mesmo, pois B.B. King requer "circunstância".