Caso Clínico: Homem, 34 anos, olhos castanhos claros, cabelos rareando (mas castanhos bem claros), dentes meio tortinhos (os de baixo), mãos com 20 cm de comprimento cada, baixista profissional e professor numa renomada escola de música aqui de São Paulo. Especializado em Berkeley. Um orgulho, o moço!
Nós nos conhecemos num fórum da internet que discutia música. Conversa vai, conversa vem, uns dois meses de papinho mole, "eu já toquei com fulano (sem trocadilhos infames, gracta!), eu já regi cicrano, blá blá blá", até que ele me chama, como quem não quer nada, para tomar uma Fanta nos arredores do instituto em que ele dava aula. Naquela época eu era louca e aceitei (mas já tinha especulado sobre o moço, o que na verdade também não era garantia de nada). Mas confiei e decidi encarar o "almost blind date" como se não houvesse amanhã, já diria Renato Russo.
Decidimos nos encontrar no saguão da recepção da escola, eu iria até lá, aproveitava e comprava cordas novas para meu banjo e tal. A aula dele acaba e lá vem o moço. Imaginem Bridget Jones desconcertada. Multipliquem por mil. Ele era muito alto, usava um boné da Gibson e se vestia super bem. Saímos de lá e fomos a um barzinho famoso onde ele conhecia até a moça substituta da chapelaria. Trocamos cifras de músicas (ahãm – claro, claro), descobrimos vários amigos em comum (este mundo de bares é uma caixinha de surpresas), trocamos mais cifras de músicas, tablaturas, cifras, cifras e mais cifras e quando meus lábios e língua já não aguentavam mais trocar cifras de músicas e tablaturas com os lábios e língua dele, fui para casa, leve e feliz.
Resumão da história: Gostei do cara por 2 anos, nossa história foi linda, legal e...
...ele tinha um pequeno problema. Era músico. Profissional. Normal? Na verdade, quem já teve um caso com músicos (e eu já tive alguns) vai saber que isso quase quer dizer "womanizer" ou mulherengo. Bem, adicione aqui o adjetivo que mais lhe agradar para o termo "polígamo".
Eu aguentava tudo. E fingia não ver. Afinal ser "a oficial" nos dá um certo status. Uma espécie de falsa segurança, o que é confortável. Nossa relação era incrível. Eu o chamava de "Bunda de Babuíno" (não perguntem o motivo, ok? Gracta!) e ele me chamava de Courtney Love, devido a uma certa preferência que eu tinha para calçados e... não importa! Sem sombra de dúvidas, o cara mais divertido que eu já conheci em toda minha vida. Porém, polígamo!
Numa destas em que eu aguentava tudo, ele decidiu que eu era uma boa motorista (eu já atropelei um motoboy, nenhum seguro renova comigo) e resolveu beber mais um pouquinho (ele era destes, que enchia a lata), mas por ser gente boa, todo mundo achava legal e relevava. Ainda mais porque ele ficava ainda mais brilhante nas sacadas e ainda mais engraçado (no bom sentido) quando estava bêbado.
E foi aí que começou meu martírio. Neste dia ele decidiu que iria contar uma de nossas relações-prazerosas-sem-fins-reprodutivos para a galera da mesa, quiçá do bar. Eis que ele começa a contar e...ops! Não era bem de mim que ele estava falando. Não era uma relação-prazerosa-sem-fins-reprodutivos entre ele e eu (não que eu fosse deixá-lo contar. Na hora eu enfiaria (ui!) um pão italiano na boca dele e pronto! Porque sou destas, discreta!). E ele citou nomes. E tinha sido ontem. E ontem eu não estava com ele. E era o fim!
Diagnóstico: Polígamo. Polígamo, bêbado, cabeça de babuíno, degenerado, desgraçado. Bêbado, filadumaégua! Descaraaaaaaaaaado, filadumaégua! E como eu não sei nenhum palavrão em latim, filhus di putibuum. Com todo respeito as putibuum.
Tratamento Aplicado: Após humilhação pública, levantei-me, tomei um táxi (com gelo e limão, please!) e fui para minha casa. Não chorei, porque sou destas que aceitam com dignidade o fardo que Deus lhe dá. Eu aceitei. Eu me submeti. Eu tomei na cara. É o justo. Podem tripudiar!
Foi difícil esquecê-lo. Mas eu nunca mais o procurei. Ele sim me procurava para acertarmos tudo e eu só conseguia rir. Até que ele desistiu. Acreditem se quiser, somos amigos e muito amigos. Ele me ensinou a gostar de Jazz, me ensinou a assoviar em shows, a afinar banjo sem diapasão, e também me ensinou o valor que eu tenho! Ensinou-me a nunca aceitar menos do que eu mereço. E se eu merecer um simples beijo na boca, que seja. Mas sempre respeitando minhas exigências internas, que às vezes são rígidas e às vezes não. Porque eu sou destas, que muda de idéia de um dia para o outro sem culpa!
Nota da Doutora: Sim, este post está longo devido à importância do doido. Nem sempre a intensidade de uma relação está na forma como ela começou ou no tempo em que ela durou. Já tive relações que começaram de forma ortodoxa ou que duraram décadas, mas que nem de longe se compararam ao Doido Maestro.
Para ler ouvindo: Girls Who Play Guitars do Maxïmo Park (Veja aqui o clipe), que eu estou amando no momento.
O álbum Tonight do Franz Ferdinand me fez ficar com TOC musical. Quem ainda não ouviu, ouça. Lembrei-me da época do Resumo da Ópera (uma antiga danceteria aqui de São Paulo em que eu mijogava quando tinha uns 14 anos). Quem curte Franz Ferdinand vai curtir. Quem curte dançar, vai curtir muito. Mas isso é opinião pessoal, conheço gente que não gostou at all. E eu continuo preferindo o Julian Casablancas ao Alex Kapranos. Sópassabê!
UPDATE:
O jornalista Ricardo Noblat publica diariamente dicas de sites, blogs e fotologs interessantes e hoje ele indicou o Sou Pára-Raio de Doido (uhu!). Quem não viu ainda, clique aqui.
Obrigada ao Noblat e ao nosso leitor André pela sugestão! Brid e eu estamos muito, muito felizes (quase insuportavelmente felizes)!
Beijo,
Lee